O que está acontecendo na pintura “O Refeitório”, de Vassíli Perov?
Os críticos da época descreveram as obras de Vassíli Perov como: "Tudo austero, grave, sério e dolorosamente mordaz". As obras deste talentoso artista eram valorizadas por sua veracidade, mas, em certos círculos, eram completamente impopulares, principalmente entre o clero. O artista não abria exceções e retratava os clérigos de forma tão imparcial quanto policiais, camponeses ou proprietários de terras.
Realismo imoral
Em 1861, o artista apresentou duas pinturas retratando padres à Academia de Artes de São Petersburgo. A primeira, intitulada "Sermão na Aldeia", rendeu-lhe uma medalha de ouro. A segunda, intitulada "Procissão Religiosa Rural na Páscoa", causou um escândalo. O motivo foi a maneira realista com que Perov retratou as celebrações de Páscoa na aldeia: a lama intransitável sob os pés, um ícone invertido nas mãos de um velho, um padre bêbado mal conseguindo se manter de pé e um camponês dormindo no chão.
A pintura foi removida da exposição e proibida de ser exibida ou reproduzida no futuro. O famoso filantropo Pável Tretiakov, fundador da galeria Tretiakov, comprou a obra sem hesitação e, em breve, foi advertido de que o Santo Sínodo questionaria a base para sua compra da pintura considerada imoral.
As fronteiras do bem e do mal
Perov não abandonou o tema escolhido e continuou a criar obras que expressavam, em partes iguais, a tristeza pela humilhante condição humana e a fé de que as coisas poderiam mudar um dia.
Durante uma viagem de estudos pela Europa, ele decidiu pintar uma cena da vida monástica russa. Mas o trabalho se arrastou. Na primavera de 1866, o artista anunciou que esperava concluir "O Refeitório" naquele inverno e planejava apresentá-la ao Conselho da Academia de Artes.
Ele retratou um jantar monástico: padres sentados à mesa fartamente posta. Garçons correndo de um lado para o outro: um apressando-se com um prato de peixe assado, outro correndo para abrir mais uma garrafa instigado impacientemente por um dos sacerdotes.
Os convidados reunidos entregam-se à gula sem restrições: alguns decidem até levar comida para casa, despejando ostras de seus pratos em um lenço. Uma corpulenta comerciante em um vestido lilás, já tendo pago pelo jantar, é conduzida pelo braço até a mesa, como uma convidada de honra.
Esta cena se torna ainda mais repulsiva quando se nota uma mendiga sentada no chão com seus filhos, estendendo a mão para sua benfeitora. No entanto, ninguém lhes presta atenção, nem ao padre que se prostrou diante dos banqueteadores, aparentemente esperando ser convidado a se juntar a eles.
Os monges na mesa ao lado observam este banquete com desgosto. A refeição deles é muito mais modesta, sem vinho ou iguarias exóticas. E, por perto, um dos irmãos continua a rezar sem prestar atenção ao que está acontecendo.
Há esperança
Em sua pintura, Perov retratou todo um buquê de pecados capitais: não apenas a gula, mas também o orgulho, a ganância e a inveja. Mas os raios de sol que entram pelas janelas iluminam a mesa sem iguarias, os monges sentados nela e o padre rezando diante da Bíblia, como se oferecessem esperança para um renascimento espiritual.
O pássaro voando acima do padre é um símbolo do Espírito Santo. Se ele ainda não deixou estas paredes, então deve-se acreditar que tudo mudará. O artista também utiliza citações do Evangelho escritas nas paredes do refeitório na língua eslava eclesiástica como pistas: "Lázaro, vem para fora", "Não julgueis, para que não sejais julgados", "Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim". Assim, Perov conclama os espectadores a manterem sua fé.
Retorno ao público
"O Refeitório”, na qual Perov "retratou uma comerciante com monges, como ele vira pessoalmente", não foi autorizada a ser exibida, de acordo com a publicação contemporânea "Vestnik Iziáschnikh iskusstv" ("Boletim de Belas Artes", em português). Até as fotografias da pintura foram proibidas. Em 1875, o artista fez algumas alterações na obra. Mas ela só foi exibida após sua morte e 16 anos depois de ter sido concluída. Em 1882–1883, uma grande exposição das obras de Perov foi realizada em Moscou e São Petersburgo, onde o público a viu pela primeira vez.
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