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Como Nikolai Sklifosóvski se tornou um dos fundadores da cirurgia moderna

Janela para a Rússia (Foto: Sputnik, Víktor Tchernov/Sputnik)
Ele ficou órfão ainda criança, cresceu em um orfanato e, durante os estudos, desmaiava ao ver sangue.

Na Rússia, seu nome costuma ser abreviado — “Sklif”. No entanto, ao falar isso, os russos geralmente se referem não à pessoa, mas ao Instituto de Pesquisa em Emergência Médica que leva o seu nome. O perfil da instituição é o atendimento a situações críticas: para lá são levados pacientes que necessitam de intervenção cirúrgica urgente, reanimação, tratamento de queimaduras, intoxicações agudas e casos semelhantes. O próprio Nikolai Sklifosóvski não teve relação direta com o instituto, que foi aberto duas décadas após a sua morte. Ainda assim, quase todo russo conhece Sklifosóvski, cuja contribuição para o desenvolvimento do atendimento médico de emergência é imensa.

Do medo de sangue aos campos de guerra

Sklifosóvski nasceu em 6 de abril de 1836 na província de Kherson e foi o nono de 12 filhos de uma família nobre, porém de poucos recursos. Após perder a mãe ainda criança, Nikolai, junto com os irmãos mais novos, foi entregue pelo pai a um orfanato em Odessa (atual Ucrânia). Em 1854, concluiu o ginásio com medalha de prata e, no ano seguinte, ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de Moscou.

Seu mentor foi o renomado cirurgião Fiódor Inozemtsev. Segundo biógrafos, durante sua primeira cirurgia como estudante, o futuro médico desmaiou ao ver sangue, mas, em pouco tempo, se acostumou.

Instituto de Pesquisa em Emergência Médica Sklifosóvski
Evguêni Biatov / Sputnik

Em 1859, Sklifosóvski se formou, defendeu sua tese de doutorado e partiu para adquirir experiência médica diretamente nos campos de guerras internacionais.

Cirurgia militar de campanha

Sklifosóvski foi chamado de “médico de todas as guerras” da segunda metade do século 19. Ele participou de quatro campanhas militares: a Guerra Austro-Prussiana (1866), a Guerra Franco-Prussiana (1870–1871), o conflito sérvio-montenegrino-turco (1876) e a Guerra Russo-Turca (1877–1878). Essas experiências extremas permitiram que ele desenvolvesse princípios de tratamento que permanecem relevantes até hoje.

Sala de cirurgias do Batalhão Médico em uma tenda, 1944.
Valéri Faminski/MAMM/MDF

Ele defendia que os feridos fossem levados o mais rápido possível a hospitais militares, onde poderiam receber atendimento médico qualificado. Isso não era considerado prática padrão na época.

Além disso, diferentemente da então comum prática de amputações imediatas, Sklifosóvski defendia cirurgias de preservação de membros. Ele foi o primeiro na Rússia a aplicar amplamente ressecções, ou seja, remoção de partes danificadas de articulações e ossos, preservando o membro lesionado. Ele também desenvolveu a técnica de união de ossos longos, conhecida como “cadeado russo” ou “cadeado de Sklifosóvski”, que garante fixação firme dos fragmentos e, em versões modificadas, é utilizada até hoje.

Revolução na higiene

No século 19, a mortalidade pós-operatória causada por sepse (infecção generalizada) e gangrena era altíssima. Sklifosóvski foi um dos primeiros na Rússia a compreender as causas desse problema e a iniciar uma luta sistemática contra as infecções. Ele foi um dos principais divulgadores do método antisséptico de Joseph Lister, que previa o uso de substâncias químicas, como, por exemplo, o ácido carbólico, para eliminar bactérias nas feridas.

O médico não se limitou ao uso de substâncias químicas. Ele foi um dos pioneiros na introdução da assepsia, ou seja, métodos de esterilização. Sklifosóvski exigia que a equipe utilizasse roupas limpas, lavasse e desinfetasse as mãos e introduziu o tratamento térmico de instrumentos cirúrgicos e roupas hospitalares por meio de fervura e vapor.

Seus contemporâneos ironizavam: “Não é curioso que um homem tão grande tenha medo de criaturas tão pequenas como bactérias, que ele nem sequer pode ver?”. No entanto, graças à sua insistência, a mortalidade pós-operatória nas clínicas russas caiu drasticamente.

Pioneiro da cirurgia abdominal

No final do século 19, a cirurgia das cavidades abdominal e torácica ainda estava em seus primórdios. Sklifosóvski foi um dos pioneiros dessa área na Rússia — ele não só realizava gastrotomias (abertura do estômago), como também trabalhou no tratamento do câncer de esôfago.

Especialistas em uma sala de cirurgia, década de 1940.
MAMM/MDF

Sklifosóvski desenvolveu técnicas cirúrgicas para a remoção da glândula tireoide, tratamento de hérnias cerebrais e doenças da vesícula biliar e da bexiga. Além disso, introduziu o amplo uso da clorofórmio, do éter e da anestesia local.

Organizador da ciência e da educação médica

A contribuição de Sklifosóvski como organizador do sistema de saúde e educador foi tão significativa quanto suas realizações cirúrgicas. Como decano da Faculdade de Medicina da Universidade de Moscou (1880–1893), liderou a criação de um complexo clínico integrado, que se tornou a base da medicina universitária moderna na capital.

De 1893 a 1900, dirigiu o Instituto Clínico Imperial da Grã-Duquesa Elena Pavlovna em São Petersburgo. Ele também defendia o acesso das mulheres ao ensino superior em medicina: durante a Guerra Russo-Turca, liderou um grupo de médicas que atuaram nos hospitais em igualdade com os homens.

Instituto Clínico Imperial da Grã-Duquesa Elena Pavlovna.
Domínio público

Sklifosóvski deixou cerca de uma centena de trabalhos científicos, muitos dos quais permanecem relevantes até hoje. Ele não apenas salvou inúmeras vidas, como também ajudou a transformar a cirurgia em uma ciência precisa.

Além do mais, biógrafos afirmam que, em 1884, o professor Sklifosóvski entregou solenemente o diploma de médico ao futuro escritor Anton Tchékhov. No entanto, apenas três anos depois, o escritor abandonaria para sempre a medicina para se dedicar à literatura.

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