O que está acontecendo no quadro “A Andarilha”, de Nikolai Kôchelev?
No centro da obra está uma izbá, a tradicional casa camponesa russa, com um grupo de pessoas fascinadas, ouvindo uma mulher idosa vestida com simplicidade. Ela está sentada à mesa, aparentemente, ofereceram-lhe comida, e conta, de maneira animada, uma história que parece já ter relatado muitas vezes. Os adultos parecem imaginar aquilo de que ela está falando. As crianças também acompanham a história com interesse.
Os stránniks, ou seja, andarilhos e peregrinos que levavam uma vida errante, eram um fenômeno característico da Rússia Antiga e, mais tarde, do Império Russo. Eles percorriam o enorme território do país, das densas florestas da Sibéria aos palácios reais, e eram tratados com grande respeito.
Sua chegada à aldeia era um acontecimento que trazia novidade à vida pacata, e suas histórias eram uma janela para o mundo lá fora. A vida dos andarilhos se baseava na renúncia ao conforto material, aos bens e à vida sedentária. Eles viviam de esmolas, passavam a noite onde quer que fosse possível e estavam constantemente em movimento. Para eles, o ato em si de viajar era mais importante do que o destino final.
Os stránniks funcionavam como uma espécie de “jornal vivo”. Eles podiam transmitir à população analfabeta notícias sobre novas normas da Igreja, concílios e decisões dos hierarcas. Muitas vezes, eram procurados para rezar por alguém em lugares sagrados, acender velas, encomendar orações pelos mortos ou simplesmente levar bilhetes e correspondências para regiões distantes.
Os stránniks ajudavam a levar tanto a correspondência de camponeses comuns quanto mensagens criptografadas dos anciãos e hierarcas da Igreja. Era praticamente impossível interceptar essa correspondência, porque havia muitos stránniks, todos parecidos entre si: pobres, vestidos com roupas cinzentas e carregando bolsas velhas nas quais seria difícil descobrir uma carta escondida.
Os andarilhos costumavam ser pessoas muito devotas, e suas histórias eram impregnadas de significado religioso. Eles partilhavam contos, lendas e relatos que haviam ouvido em outros lugares. Suas narrativas sobre visitas a lugares sagrados e terras distantes eram, para os moradores das aldeias, uma forma de viajar sem sair de sua própria izbá.
É justamente isso que vemos no quadro de Kôchelev: uma andarilha contando histórias, uma família reunida ao seu redor e um pequeno mundo camponês, por alguns instantes, voltado para o que existe além de suas paredes. Para aquelas pessoas, bastava a chegada de uma viajante para que o mundo lá fora entrasse na izbá.
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