Por que resta apenas um exemplar da primeira Bíblia ilustrada russa?
No final do século 17, um mestre da xilogravura chamado Vassíli Koren criou um livro absolutamente único. Tratava-se de sua própria versão da Bíblia, composta por 20 folhas do Livro do Gênesis e 16 folhas do Apocalipse.
As imagens, produzidas com a técnica da xilogravura, vinham acompanhadas de legendas e lembravam as ilustrações da ‘Biblia Pauperum’ (‘Bíblia dos indigentes’) europeia, publicada no século 15 para pessoas com pouca instrução.
Koren provavelmente conhecia essa obra e a arte religiosa, pois cresceu em uma aldeia no território da então Comunidade Polaco-Lituana. Durante a Guerra Russo-Polonesa, ele se mudou para a Rússia, onde começou a trabalhar na Casa de Impressão de Moscou.
Segundo especialistas da Biblioteca Nacional da Rússia, em São Petersburgo, Koren criou as gravuras na última década do século 17. Como a virada do século se aproximava, os fiéis aguardavam a chegada do Anticristo e o fim do mundo. Por isso, as cenas — da Criação do mundo ao Juízo Final — revelaram-se tão vívidas e carregadas de emoção.
O problema é que as imagens foram produzidas fora das tradições da pintura de ícones da Igreja Ortodoxa Russa. A censura eclesiástica considerava perigosa, e até mesmo herética, a interpretação livre de temas bíblicos e a representação não canônica de Deus e dos santos. Com isso, o livro foi proibido, e a tiragem inteira (cerca de 1.000 exemplares) acabou sendo confiscada e destruída.
O único exemplar sobrevivente, datado de 1692, encontra-se hoje no Departamento de Livros Raros da Biblioteca Nacional da Rússia — embora não esteja completo.
Os estudiosos ressaltam que a edição de Koren é singular — tanto na técnica quanto no estilo. Afinal, nela, desenhos do gênero folclórico lubok estão combinados com temas bíblicos.
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