Por que a Europa e a Ásia se apaixonaram pelo ‘La Fontaine russo’?
‘O Corvo e a Raposa’, ‘O Cisne, o Lúcio e o Caranguejo’, ‘A Cigarra e a Formiga’, ‘O Quarteto’, ‘O Macaco e os Óculos’, ‘O Elefante e o Cãozinho’, ‘O Lobo e o Cordeiro’ – há três séculos, o ‘vovô Krilov’ ensina aos jovens leitores russos os princípios básicos da moralidade e da ética por meio de suas fábulas. Citações das obras estão gravadas na memória da maioria dos falantes nativos de russo, seja com o mingau da infância ou com uma torta da cantina da escola.
Na segunda metade de sua vida, Krilov cultivou conscientemente a imagem de excêntrico, construindo uma lenda. No entanto, essa simplicidade se combinava com conhecimento enciclopédico, habilidades brilhantes de conversação e uma vasta, ainda que nem sempre agradável, experiência de vida.
Valentin Serov. Illustration for the fable "The Crow and the Fox"
Uma infância difícil
Ivan Krilov teve uma infância turbulenta. Ele vinha de famílias nobres empobrecidas e era o filho mais velho de um capitão do exército. Em 1772, seu pai foi enviado para suprimir o levante de Emelian Pugatchov. O pequeno Ivan e sua mãe o seguiram até a cidade de Iaitski, mas, devido ao perigo, foram transferidos para Oremburgo. Em pouco tempo, esta cidade também foi sitiada. Pugatchov prometeu enforcar não apenas o capitão Krilov, mas toda a sua família, incluindo o filho. Esses acontecimentos deixaram uma impressão profunda na criança e repercutiriam diversas vezes em sua vida adulta.
Após a supressão da rebelião de Pugatchov, o pai de Krilov, sem receber prêmio algum, decidiu se aposentar e mudou-se com a família para Tver, onde assumiu o modesto cargo de presidente do magistrado provincial. Ele morreu pouco depois. Ivan, de onze anos, tornou-se o membro masculino mais velho da família (tinha um irmão mais novo, Lev) e o único ganha-pão, conseguindo um emprego como subescriturário no mesmo gabinete do magistrado. O garoto aprendeu a ler e escrever em casa com os proprietários vizinhos, que lhe permitiam ter aulas de francês com seus filhos. Do pai, herdou um baú de livros – clássicos, satíricos e filósofos – que se tornou a base de sua formação.
Em 1782, a viúva e seus filhos se mudaram para São Petersburgo para solicitar uma pensão. Ivan foi nomeado escrivão da Câmara do Tesouro, mas a carreira no serviço público não o atraía. Ficou fascinado pelo teatro e, aos 15 anos, escreveu o libreto da ópera cómica ‘A Cafeteria’*, salpicado de expressões idiomáticas que havia aprendido e ouvido. Aos 18 anos, deixou o serviço militar, decidindo viver da escrita. Porém, a tragédia ‘Filomela’* e as comédias ‘A Família Desvairada’* e ‘Os Malandros’* não tiveram o sucesso esperado. (*em tradução livre; sem título oficial em português)
Quanto aos estudos, jamais parou. Fluente em francês, Krilov começou a estudar italiano, alemão e até mesmo grego antigo, debruçando-se sobre os originais de Homero e Aristófanes. Sua erudição, talento para a matemática e habilidade com o violino impressionavam seus contemporâneos.
Valentin Serov. Illustration for the fable "Quartet"
Um jovem rebelde
Krilov encontrou seu nicho nas revistas satíricas. Em 1789, ele começou a publicar o mensal ‘Correio dos Espíritos’, no qual, usando correspondência entre gnomos e um mago, zombava sarcasticamente dos funcionários por sua tirania, suborno e ostentação. A revista durou menos de um ano, teve apenas 80 assinantes, mas atraiu a atenção das autoridades. Diz a lenda que Catarina, a Grande, o convidou a “viajar com despesas públicas”, ou seja, deixar a capital.
O escritor não desistiu e, três anos depois, junto com amigos, fundou uma gráfica e a revista ‘Spectator’, seguida de ‘The St. Petersburg Mercury’ (1793), na qual continuou a ridicularizar as autoridades e a nobreza. Isso resultou em uma audiência pessoal com a imperatriz. A revista foi fechada e Krilov foi efetivamente proibido de publicar seu material. Ele resolveu, então, mudar-se de São Petersburgo.
Os anos entre 1794 e 1806 corresponderam ao período mais estranho de sua vida. Ele morou em casas de conhecidos e serviu como secretário e tutor dos filhos do Príncipe Golitsin. Durante anos, mergulhou no mundo dos jogos de cartas profissionais, viajando para diversas feiras. Segundo relatos, ficou até proibido de entrar nas duas capitais devido ao jogo. Esses anos “no fundo do poço” lhe proporcionaram uma experiência única, que, mais tarde, aplicou à literatura.
Em 1806, Krilov retornou a São Petersburgo com três traduções das fábulas de La Fontaine, um escritor que já admirava de longa data. O fabulista Ivan Dmitriev os aprovou, dizendo: “Esta é a sua verdadeira linhagem”. No mesmo ano, as suas comédias ‘A Loja da Moda’ e ‘Uma Lição para as Filhas’, ambas flagelando a obsessão pelas coisas francesas, foram encenadas com sucesso. No entanto, a partir de 1808, o escritor passou a se concentrar exclusivamente nas fábulas.
Nathan Altman. Reproduction of an illustration for the fable "The Monkey and the Spectacles"
“Vovô Krilov”
Um ano depois, seu primeiro livro — um pequeno volume contendo 23 fábulas — foi publicado e recebeu aclamação. Krilov revolucionou a fábula, transformando-a de uma narrativa convencionalmente alegórica em uma comédia ou drama curto, com personagens vívidos, uma linguagem coloquial brilhante e um subtexto social pungente. Os títulos ‘O Elefante e o Cãozinho’, ‘O Quarteto’ e ‘O Cisne, o Lúcio e o Caranguejo’ obtiveram sucesso instantâneo.
Em 1812, Krilov ingressou na Biblioteca Pública Imperial como assistente de bibliotecário e lá serviu por quase 30 anos, trabalhando com bibliografia. Já era, então, um escritor respeitado e estimado pelas autoridades. Suas fábulas, especialmente as do período de guerra (como ‘O Lobo no Canil’, associada a Kutuzov), viraram tesouros nacionais.
Retrato do fabulista I. A. Krilov. 1839
Ele nunca se casou oficialmente. Sua companheira por anos foi uma cozinheira chamada Fenia (Fekla Ivanova), com quem teve uma filha, Aleksandra. Krilov garantiu a educação e o dote da filha e deixou toda a sua fortuna para a família dela. Foi eleito membro da Academia Russa e agraciado com uma medalha de ouro em 1823.
Em 1825, o conde russo-parisiense Grigóri Orlov publicou, por conta própria, uma coleção de dois volumes das fábulas de Krilov, traduzidas para o francês e o italiano por 59 poetas. Seguiram-se novas traduções para as principais línguas europeias, incluindo dinamarquês, polonês e romeno, entre outras.
Krilov faleceu em 21 de novembro de 1844, em decorrência de uma pneumonia bilateral. Seu funeral foi grandioso. Em sua memória, o autor havia deixado instruções para que exemplares de sua última edição — a nona — fossem enviados a todos os seus amigos. Um monumento a ele, projetado por Piotr Klodt (1855) e situado no Jardim de Verão em São Petersburgo, é cercado por figuras dos protagonistas de suas fábulas, simbolizando o eterno diálogo do sábio com o povo.
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