Este sintetizador soviético foi um dos primeiros computadores musicais do mundo
O engenheiro Evguêni Murzin era apaixonado por música — tanto que decidiu criar um instrumento que permitisse às pessoas compor, fazer arranjos e executar música sem a necessidade de uma orquestra. Em suas próprias palavras, o objetivo era “desbloquear um tesouro de combinações sonoras desconhecidas e mostrar aos compositores contemporâneos o caminho para novas harmonias”. Murzin dedicou vinte anos ao desenvolvimento de sua invenção.
Ele começou em 1938 e concluiu um protótipo funcional em 1958. Batizou seu sintetizador fotoeletrônico de ‘ANS’, em homenagem ao compositor Aleksandr Scriabin, que o inspirou. Seria mais preciso, porém, descrever a criação de Murzin como um dos primeiros computadores musicais do mundo.
Diferentemente da escala tradicional de 12 tons, o ‘ANS’ possui 72 divisões por oitava, gerando, no total, 576 tons. Isso permitia a criação de variações sonoras sutis, que podiam ser combinadas de praticamente qualquer forma. Com isso, era possível construir composições musicais impossíveis de serem produzidas com instrumentos convencionais.
Criar música com o ‘ANS’ se assemelhava mais à pintura do que à composição tradicional. A partitura era “escrita” sobre uma placa de vidro revestida com uma tinta que bloqueava a luz. Um dispositivo especial gravava linhas nessa camada, representando harmônicos, tons puros e notas graves. Para produzir ruídos ou ecos, o compositor precisava pintar sobre os espaços transparentes. Era então que células fotoelétricas captavam essa “imagem” sonora e a transformavam em música. Dali em diante, restava apenas dar os toques finais: acelerar ou desacelerar o som e ajustar o volume.
O compositor Dmítri Chostakóvitch ficou tão impressionado com a invenção de Murzin que propôs produção em larga escala e o ajudou a desenvolver um protótipo funcional do sintetizador. Em 1966, foi inaugurado em Moscou um estúdio experimental de música eletrônica, onde instrumentistas e compositores trabalhavam com o ‘ANS’.
As primeiras composições criadas com esse sintetizador surgiram no filme ‘Rumo ao Espaço’, de 1961. Seus sons característicos também podem ser ouvidos em ‘Solaris’ (1972) e ‘O Espelho’ (1975), de Tarkovsky; em ‘Siberíada’ (1979), de Andrei Kontchalovski; e em ‘Braço de Diamante’ (1969), de Leonid Gaidai.
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