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Como Pedro, o Grande, reformou o alfabeto russo

Kira Lisitskaya (Photo: magnific.com; Katerina Solovy/Zoonar.com/IMAGO/Global Look Press)
O imperador russo europeizou muitas esferas da vida russa, do exército à moda. E o alfabeto não foi exceção: algumas letras receberam novas formas, enquanto outras acabaram sendo totalmente abolidas.

Em 1563-1564, foi publicado o primeiro livro impresso na Rússia – os ‘Atos e Epístolas dos Apóstolos’, ou apenas ‘Apostol’ em russo. O alfabeto desta obra seguia o modelo da escrita semi-uncial, um tipo de cirílico antigo manuscrito usado em todos os livros da Igreja.

“O Apóstolo” (Apostol) foi o primeiro livro impresso com data exata na Rússia
The State Russian Library

 

A escrita semi-uncial impressa mantinha as características visuais das fontes manuscritas. Possuía um sistema de letras bastante arcaico e um sistema de sinais gráficos herdado da tradição dos livros em eslavo eclesiástico.

Por que um novo alfabeto era necessário

A escrita semi-uncial impressa era mais padronizada e adequada para a reprodução tipográfica do que sua antecessora manuscrita, mas ainda tinha uma desvantagem significativa. Não era conveniente usar esse alfabeto antigo com as prensas de impressão holandesas que Pedro, o Grande, havia comprado junto com outros equipamentos de impressão.

O surgimento de um novo alfabeto, porém, não foi influenciado apenas por considerações de questões relacionadas à impressão. Tudo o que era europeu estava na moda na Rússia, incluindo a escrita latina. Assim, a introdução de um novo tipo de escrita “civil" aproximava o alfabeto russo dos padrões de impressão da Europa Ocidental — ainda que sem abandonar por completo o alfabeto cirílico.

Como o alfabeto “civil” foi criado

Em 1707, Kuhlenbach, um engenheiro de fortificação militar, desenhista e ilustrador, criou as bases para o novo alfabeto. Acredita-se que ele trabalhou a partir de esboços do próprio imperador Pedro. Uma folha de prova do alfabeto corrigida por Pedro existe até hoje: nela, o imperador marcou quais letras deveriam ser mantidas, quais deveriam ter suas formas alteradas e quais deveriam ser totalmente abolidas.

Correções de Pedro no alfabeto
Russian State Historical Archive

Kuhlenbach criou desenhos para trinta e duas letras minúsculas e quatro letras maiúsculas (А, Д, Е, Т). Inicialmente, Pedro queria convidar especialistas holandeses à Rússia para criar a nova escrita, estabelecer a impressão de acordo com os padrões europeus e ensinar essa habilidade aos artesãos russos. Mas isso sairia caro demais.

Assim, ele encomendou em Amsterdã um conjunto de matrizes e punções para impressão, feitos de acordo com os modelos russos. Quando tudo ficou pronto, impressores holandeses chegaram a Moscou para iniciar as operações.

O que mudou?

O número de letras nas diferentes versões do alfabeto civil variava. Inicialmente, o imperador queria eliminar letras como Ꙁ (zelo), Ѡ (ômega), Ѿ (ligadura ot), Ѯ (ksi), Ѱ (psi), Ѳ (fita) e Ѵ (izhitsa). Mas uma ruptura tão radical com a tradição não pôde deixar de suscitar descontentamento entre os escribas e o clero, de modo que a versão final manteve as letras Ѯ, Ѳ e Ѵ para uma reprodução mais precisa de palavras emprestadas do grego.

Além de certas letras, os sinais gráficos e de abreviação desapareceram.

A forma de representar os números também mudou. O sistema numeral eslavo (que designava números com letras de acordo com a tradição grega) foi substituído pelos algarismos arábicos com os quais estamos familiarizados hoje.

Sinais de pontuação foram introduzidos, e as letras maiúsculas, que nos textos em semi-uncial eram usadas apenas no início dos parágrafos, passaram a marcar também o início das frases. O hífen foi introduzido para a divisão de palavras.

Em uma carta aos funcionários que supervisionavam a introdução da escrita civil, Pedro, o Grande, solicitou que “alguma oração fosse impressa com esse alfabeto, até mesmo o Pai Nosso”, como um teste.

No entanto, a primeira publicação impressa usando o alfabeto civil foi “Geometria Eslava e Medição de Terras”, em 1708. Durante o reinado de Pedro, mais de 400 livros foram impressos com a nova escrita.

Ajustes adicionais foram feitos por meio de sucessivas tentativas e erros ao longo de mais cem anos. Novas formas de letras surgiam periodicamente, apenas para serem substituídas pelas antigas novamente.

Onde o novo alfabeto era usado?

O alfabeto introduzido por Pedro 1º não é chamado de ‘civil’ por acaso. A reforma promovida por ele afetou apenas os textos seculares: leis e decretos, documentos administrativos, livros didáticos, obras científicas e literárias, e periódicos.

Os livros litúrgicos, como o Evangelho, o Apóstolo, o Saltério, os Menáios, os materiais de missas, bem como muitos livros de conteúdo espiritual, não foram submetidos à ‘secularização gráfica’ e continuaram a ser impressos em semi-uncial.

Os Velhos Crentes preservam seu compromisso com a antiga escrita e impressão em semi-uncial até os dias de hoje.

O alfabeto russo, porém, se espalhou além das fronteiras do país. No século 19, foi adotado pelos eslavos do sul — sérvios e búlgaros — que abandonaram seu alfabeto arcaico. Além das letras presentes no alfabeto de Pedro, os búlgaros usavam o ѫ (grande yus) — que só foi abandonado em 1945 como resultado de uma reforma ortográfica. Em 1818, o linguista sérvio Vuk Karadžić reformou o alfabeto cirílico sérvio: removeu 18 letras “supérfluas” e introduziu j, љ, њ, ћ, ђ, џ.

A versão completa deste artigo pode ser lida em russo no site Gramota.ru.

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