Como Liudmila Verbítskaia fez o mundo inteiro falar russo
Em 2000, um asteroide recebeu o nome de Liudmila Verbítskaia. A homenagem refletia a dimensão de sua contribuição para a difusão da língua russa no mundo e para o desenvolvimento da ciência e da educação na Rússia. Linguista e doutora em Filologia, Verbítskaia também entrou para a história como a primeira mulher a ocupar o cargo de reitora da Universidade Estatal de São Petersburgo.
Da elite intelectual a uma colônia para menores
Liudmila Aleksêievna Bubnova (sobrenome de solteira) nasceu em 17 de junho de 1936, em Leningrado (atual São Petersburgo). Sua família e ela própria passaram pelos horrores da Segunda Guerra Mundial, pela tragédia do Cerco de Leningrado e pelos difíceis anos do pós-guerra.
Verbítskaia durante uma reunião com o presidente russo, Vladímir Putin, em dezembro de 2018
Seu pai era secretário do Comitê Executivo da cidade de Leningrado. Em 1949, ele e outros dirigentes locais foram presos no âmbito do chamado “Caso de Leningrado”, uma campanha de repressão promovida pelo regime de Stálin contra importantes líderes políticos e administrativos da cidade, acusados de atividades antissoviéticas. Um ano depois, ele foi executado como “inimigo do povo”. A mãe de Liudmila também foi presa e enviada para campos de trabalho forçado.
A própria Liudmila foi retirada da escola e enviada para uma colônia infantil na cidade de Lvov, na então República Socialista Soviética da Ucrânia. De uma hora para outra, a menina que vinha de uma família culta de Leningrado se viu em uma instituição destinada a menores infratores.
Ela, porém, se destacava tanto das demais internas que recebeu autorização para frequentar uma escola comum fora da colônia. Tempos depois, conseguiu ingressar na Universidade de Lvov.
Como filha de um “inimigo do povo”, ela não tinha acesso às áreas ligadas ao estudo de línguas estrangeiras na Faculdade de Filologia. Restou-lhe escolher o departamento de Língua Russa — uma decisão que mudaria sua vida para sempre.
Universidade de Leningrado
Em 1954, após a morte de Stálin, seu pai foi reabilitado postumamente. Liudmila então pôde retornar à cidade natal e transferir-se para a Faculdade de Filologia da Universidade de Leningrado.
Durante os anos de estudante, conheceu seu futuro marido, o físico Vsévolod Verbítski. O pai dele também havia sido executado durante o “Caso de Leningrado”.
Verbítskaiana durante a apresentação do primeiro volume do “Grande Dicionário do Eslavo Eclesial da Nova Era” na Catedral de Cristo Salvador, em Moscou
Depois de concluir os estudos, Verbítskaia permaneceu na universidade e dedicou a ela os 64 anos seguintes de sua vida — fazendo carreira dentro da instituição, passou do cargo de técnica de laboratório ao de reitora.
Aliás, ela se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de reitora da Universidade Estatal de São Petersburgo em seus 300 anos de história. Foi também a primeira filóloga a assumir a função, vencendo nas eleições dois renomados cientistas da área de física.
Mais tarde, Verbítskaia assumiu a presidência da Academia Russa de Educação e acumulou diversos outros cargos de prestígio, além de importantes condecorações, entre elas a Ordem “Por Serviços Prestados à Pátria”.
Liudmila chegou ao comando da universidade em um momento particularmente delicado: os turbulentos anos 1990, após o desmantelamento da União Soviética. Este foi um período marcado por salários extremamente baixos para cientistas e professores, além de incertezas e dificuldades econômicas.
“Com seu carisma, sinceridade e energia, ela foi capaz de carregar sobre os próprios ombros esse período difícil na vida universitária”, declarou Dmítri Medvedev, ex-aluno da universidade e presidente da Rússia entre 2008 e 2012, no documentário “A Principal Russista do Planeta”.
Em 1994, a rainha Elizabeth 2ª visitou São Petersburgo e esteve na Estatal de São Petersburgo. Durante o encontro, ela e Verbítskaia tiveram uma conversa descontraída que incluiu até mesmo os netos de ambas.
O símbolo da língua russa bem falada
Como pesquisadora, Verbítskaia se especializou em fonética e dedicou sua carreira ao estudo da pronúncia correta. Ao longo dos anos, transformou a cultura da boa fala em um tema de interesse nacional e ajudou a difundir a ideia de que falar corretamente era sinal de prestígio.
Por iniciativa dela, foi lançado o dicionário “Vamos Falar Corretamente” e criada a campanha “Vamos Falar Como os Moradores de São Petersburgo”. Assim, cartazes com seu retrato e exemplos de acentuação correta de palavras foram espalhados por estações de metrô, pontos de ônibus e painéis informativos por toda a cidade.
A filóloga costumava dizer que o objetivo era “contagiar seus alunos e, se possível, toda a sociedade com a convicção de que falar corretamente é algo prestigioso”.
Verbítskaia também desenvolveu um método de ensino voltado para estrangeiros, ajudando-os a aperfeiçoar a pronúncia do russo e a reduzir o sotaque.
Verbítskaia no 5º Fórum Cultural Internacional de São Petersburgo
Sua autoridade em questões relacionadas à língua russa era amplamente reconhecida. Ela integrou diversos conselhos ligados ao governo e à Presidência da Rússia. Até mesmo Vladímir Putin admitiu que, em várias ocasiões, recorreu a ela para esclarecer dúvidas sobre o idioma.
“Houve ocasiões em que eu ligava diretamente do avião antes de algum evento, quando meus colegas e eu não conseguíamos chegar a um consenso sobre a forma correta de dizer alguma coisa”, contou Putin.
Segundo ele, Verbítskaia sempre tinha a resposta na ponta da língua.
“A principal russista do planeta”
“O planeta deve falar russo”, costumava dizer Verbítskaia. Ela admitiu que sua meta era ampliar a presença da língua russa no mundo.
Durante quase 20 anos, presidiu a Associação Internacional de Professores de Língua e Literatura Russa, organizando congressos e reunindo especialistas de diferentes países.
Em 2007, propôs a criação da Fundação Russki Mir (“Mundo Russo”, em português), dedicada à promoção da língua e da cultura russas no exterior. A iniciativa recebeu o apoio do presidente.
Presidente da Academia Russa de Educação, Liudmila Verbitskaia, condecorada com a Ordem “Por Serviços Prestados à Pátria” durante uma cerimônia de entrega de prêmios oficiais no Kremlin
Graças aos esforços de Verbítskaia, centros de língua russa começaram a surgir em diversos países, oferecendo ensino gratuito. Conferências internacionais de especialistas em língua russa continuaram a ser realizadas, enquanto bolsas passaram a ser concedidas para projetos voltados ao ensino e à divulgação do idioma.
Liudmila faleceu em 2019. Em 2026, ano em que se celebra o 90º aniversário de seu nascimento, está prevista a criação da Bolsa Liudmila Verbítskaia, voltada ao reconhecimento de professores de russo de destaque que atuam no exterior.
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