Como a Inteligência Artificial vem evoluindo na Rússia

Janela para a Rússia (Foto: J Studios, nantonov/Getty Images)
Janela para a Rússia (Foto: J Studios, nantonov/Getty Images)
A Rússia é um dos poucos países do mundo que desenvolve não apenas soluções aplicadas de IA, mas também seus próprios modelos fundamentais.

Mais de 60 países já adotaram estratégias nacionais para o desenvolvimento da inteligência artificial, entre eles, a Rússia. A estratégia se baseia na experiência internacional e leva em conta as particularidades nacionais e os objetivos de soberania tecnológica.

De acordo com a estratégia, até 2030, a contribuição da IA para o PIB da Rússia deverá subir para cerca de US$ 146 bilhões, contra US$ 2,6 bilhões em 2022. A participação dos setores da economia prontos para a implementação de IA deve atingir 95%, enquanto os investimentos em tecnologias de inteligência artificial devem crescer de US$ 1,6 bilhão para US$ 11 bilhões. Já o volume anual de serviços relacionados ao desenvolvimento e implementação de soluções de IA deve saltar, em quatro anos, de 12 bilhões para, no mínimo, 60 bilhões de rublos.

Wanan Yossingkum / Getty Images
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Também se prevê um aumento nos recursos humanos: o número de graduados em universidades com formação especializada na área de IA aumentará para 15.500 pessoas por ano (contra pouco mais de 3.000 atualmente), e a proporção de trabalhadores que utilizam IA em suas atividades chegará a 80%.

“Desde a aprovação de sua primeira versão em 2019, a Estratégia Nacional de IA estabeleceu os principais impulsionadores de desenvolvimento: capital humano, regulamentação, popularização, estratégia, entre outros”, afirma Kirill Solntsev, diretor executivo do departamento de desenvolvimento de IA do maior banco da Rússia, o Sber.

Aplicação Prática

blackdovfx / Getty Images
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Assim como o resto do mundo, a Rússia vive atualmente um boom no uso de tecnologias de IA. Empresas nacionais estão desenvolvendo soluções de IA de nível mundial: desde a geração de imagens até ferramentas especializadas em medicina, biologia e genética.

Na Rússia, a IA já começou a ser utilizada na administração pública e no setor social. “A disseminação de modelos fundamentais de IA deu um impulso especial à implementação, permitindo não apenas trabalhar em tarefas especializadas, mas também criar e agir. Além disso, a Rússia é um dos poucos países que desenvolvem seus próprios modelos fundamentais de IA. Por exemplo, o modelo do Sber, chamado GigaChat”, diz Solntsev.

O Sber está implementando soluções baseadas em seu próprio modelo em todos os processos de negócios e criando produtos e soluções fundamentalmente novos a partir dele. A empresa tem várias centenas de agentes em desenvolvimento, e dezenas deles já estão em operação. “Os agentes baseados no GigaChat já podem e ajudam a preparar e processar documentos, sintetizar conhecimento, responder a solicitações, oferecer recomendações para a tomada de decisões e programar. E isso traz efeitos em todas as áreas de trabalho, desde vendas e gerenciamento de projetos até treinamento e desenvolvimento”, acrescenta o diretor executivo do Sber.

Analistas da Kaspersky Lab, empresa russa de destaque no setor de cibersegurança, acreditam que o próximo ano será marcado por agentes de IA acessíveis, capazes de construir e executar uma cadeia de ações sob o comando do usuário. Além disso, a capacidade de executar determinadas ações será a mais procurada: por exemplo, adicionar produtos ao carrinho de compras do cliente para atender a uma solicitação específica.

Nos serviços de um dos gigantes da tecnologia russos, o VK, sistemas de recomendação, busca e tecnologias de publicidade são construídos com a ajuda de grandes modelos de linguagem (LLM, na sigla em inglês). “No VK, os LLMs são aplicados tanto para tarefas de engenharia quanto para melhorar a experiência do usuário nos produtos do grupo. Por exemplo, no serviço de e-mail Mail.Ru, modelos generativos são usados para resumir brevemente e-mails e escrever textos; no VK Video, para gerar legendas; no VK Ads, para criar anúncios”, explica Dmítri Kondráchkin, diretor de IA do VK.

Também com a ajuda de IA é processada parte das solicitações de suporte: elas são resolvidas por meio de cenários pré-definidos ou com o auxílio de tecnologias RAG (Retrieval-Augmented Generation — Geração Aumentada por Recuperação), nas quais a IA busca e utiliza bases de conhecimento para formular uma resposta. E também por meio de agentes de IA, ou seja, programas especializados que executam tarefas do usuário de forma autônoma. “Isso permite reduzir significativamente a carga sobre os operadores e tornar o atendimento mais preditivo”, diz Kondráchkin.

Thai Liang Lim / Getty Images
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Pável Káplia, chefe de desenvolvimento de Alisa (serviço de IA da gigante tecnológica russa Yandex), observa que os assistentes de IA baseados em LLMs estão assumindo as tarefas cotidianas do usuário: compras, reservas, planejamento e resolução de tarefas domésticas. Em particular, a Alisa AI está se desenvolvendo como um agente de IA pessoal.

“A pessoa não precisa aprender novas interfaces ou mudar seu comportamento habitual: o usuário simplesmente formula a tarefa por voz ou texto, e o agente assume a responsabilidade de esclarecer os detalhes, dividir a tarefa em etapas e interagir com vários serviços”, diz Káplia.

O modelo resolve a tarefa não apenas fornecendo uma resposta com base em seu próprio conhecimento e resultados de pesquisa na internet, mas também determina as etapas intermediárias que permitem reunir melhor o contexto da tarefa e executar as ações.

Segundo o especialista, a Alisa AI é orientada para o contexto local, uma vez que foi criada levando em consideração o idioma russo, os cenários culturais e os hábitos dos usuários, além de ser totalmente integrada ao ecossistema Yandex. Ao processar uma solicitação, a rede neural forma uma cascata de consultas ao Buscador, Mapas e outros serviços, que são, até certo ponto, um reflexo da vida real na Rússia.

Além dos produtos voltados para o usuário, as operações de rotina passaram a ser delegadas a agentes de IA dentro da empresa. ais da metade dos engenheiros do Yandex usa agentes de IA para resolver uma ampla gama de tarefas: desde escrever e revisar código até pesquisas profundas em dados corporativos e otimização de processos de teste. Como resultado, dezenas de milhares de horas são economizadas diariamente, permitindo que as equipes se concentrem em tarefas mais complexas e estratégicas.

Ética e Regulamentação

akinbostanci / Getty Images
akinbostanci / Getty Images

Em muitos países, estão sendo formados modelos próprios de regulamentação da inteligência artificial, levando em conta os sistemas jurídicos nacionais e as características culturais. Na Rússia, esse processo também está em curso.

Em 2021, a Unesco adotou a primeira Recomendação sobre a Ética da Inteligência Artificial do mundo, que foi apoiada por mais de 190 países, incluindo a Rússia. No mesmo ano, o país desenvolveu seu Código de Ética Nacional no campo da IA.

O documento foi elaborado pelos participantes da Aliança Russa no campo da Inteligência Artificial, uma associação das principais empresas de tecnologia e organizações de pesquisa, criada em 2019. Os principais objetivos dessa aliança são a pesquisa, o desenvolvimento e a disseminação de tecnologias nacionais na Rússia e no exterior, a formação da base legislativa para este setor, a atração de investimentos e a preparação de pessoal para o setor.

Mais de 1.200 signatários de diferentes países já aderiram ao Código de Ética e estabeleceram os princípios-chave:

  • A prioridade do desenvolvimento da IA é o bem-estar humano.
  • Responsabilidade no desenvolvimento e uso da IA.
  • Responsabilidade humana pelas consequências da aplicação das tecnologias.
  • Transparência das informações sobre as capacidades e riscos da IA.
  • Os interesses do desenvolvimento das tecnologias de IA são mais significativos do que a concorrência.
  • Uso da IA onde ela traz benefícios reais para a sociedade.

O Código de Ética serve como um guia na discussão de questões complexas, desde o uso da IA na educação até a ética dos sistemas autônomos e o impacto das tecnologias no mercado de trabalho.

Educação e Ciência

Vladímir Astapkovitch / TASS
Vladímir Astapkovitch / TASS

As universidades russas oferecem mais de 100 programas educacionais em inteligência artificial. Olimpíadas e cursos práticos são realizados regularmente para estudantes e alunos. Em 2022-2023, cerca de 40 mil estudantes participaram dessas iniciativas educacionais.

A pesquisa no campo da IA é conduzida em vários centros científicos e tecnológicos russos, entre eles, Skôlkovo, Innopolis e Universidade Nacional de Pesquisa ITMO.

Desenvolvimento futuro

Adrian Vidal / Getty Images
Adrian Vidal / Getty Images

Segundo a previsão da Aliança Russa sobre como será a IA daqui a 10 anos, o futuro pertence a modelos híbridos, que usarão tanto aprendizado de máquina quanto raciocínio simbólico e conhecimento científico. Esses modelos poderão processar e criar dados em diferentes meios, e também entenderão textos, imagens, vídeos e áudios. Além disso, especialistas acreditam que é preciso desenvolver modelos que possam compreender a física e a geometria do mundo, porque seu surgimento afetará todo o espectro de funções e tarefas delegadas à IA.

Na opinião de Solntsev, do Sber, em breve, a inteligência artificial desenvolverá novas habilidades cognitivas, como raciocínio em múltiplos níveis, capacidade de trabalhar em condições de multimodalidade, planejamento autônomo e ação.

Jorg Greuel / Getty Images
Jorg Greuel / Getty Images

Kondráchkin, do VK, acredita que a IA voltada para sistemas de recomendações se desenvolverá em três direções principais: modelos multimodais que analisam conteúdo, redes neurais gráficas (GNN) que preveem as funções do usuário em um determinado momento e sistemas de IA baseados em agentes que executam várias ações ao mesmo tempo.

Em breve, os agentes de IA se tornarão mais sensíveis ao contexto e serão mais autônomos, acredita Pável Káplia, do Yandex. Eles aprenderão a lembrar as preferências do usuário com mais eficiência, considerar seu ritmo de vida e concluir tarefas de várias etapas sem o envolvimento constante do ser humano. Ao mesmo tempo, dispositivos vestíveis com controle por voz serão desenvolvidos. No longo prazo, esses modelos inteligentes se tornarão parte do conforto digital, libertando as pessoas de operações rotineiras e permitindo que se concentrem em tarefas verdadeiramente significativas.

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