A criação arriscada de Tchaikóvski que levou ao nascimento de sua obra-prima operística
Na segunda metade da década de 1870, o compositor russo Piotr Tchaikóvski, cuja popularidade crescia rapidamente, buscava um enredo para criar uma nova ópera. A ideia de tomar como base a trama do mais famoso romance em versos de Aleksandr Púchkin, “Eugênio Onêguin”, surgiu por acaso. Como contou o próprio compositor, em maio de 1877, a obra de Púchkin foi sugerida a ele pela cantora de ópera Elizaveta Lavróvskaia.
Piot Tchaikóvski. SãoPetersburgo. 1874. Fotografado por A. Lawrence
“Essa ideia me pareceu absurda... Depois, almoçando sozinho numa taverna, lembrei-me de Onêguin, refleti, depois comecei a achar a ideia de Lavróvskaia possível, em seguida me entusiasmei e, ao final do almoço, decidi”, escreveu Tchaikóvski em uma carta ao irmão Modest. “Corri atrás do livro de Púchkin. Encontrei-o com dificuldade, fui para casa, eu o reli com entusiasmo e passei uma noite inteira sem dormir, cujo resultado foi o cenário de uma ópera encantadora com o texto de Púchkin”.
Pôster da ópera “Eugênio Onêguin” no Teatro Bolshoi, 1886
Ainda na fase de criação, poucos acreditavam em seu sucesso nos palcos. Quase todos os parentes e amigos do compositor consideravam sua escolha um erro: um enredo relativamente “contemporâneo”, sem cenas espetaculares e reviravoltas inesperadas; a morte de um dos personagens no meio da ação, e não no final.
O próprio Tchaikóvski, aliás, tinha consciência da complexidade da tarefa e acreditava que sua ópera estava “condenada ao fracasso e à indiferença do público. O conteúdo é simples, não há quaisquer efeitos cênicos, a música é desprovida de brilho e de uma espetacularidade estrondosa [...] Eu escrevi Onêguin sem perseguir quaisquer objetivos externos. Onêguin não será interessante no teatro”.
Leonid Sobinov como Lenski na ópera “Eugênio Onêguin”. Moscou, 1912
Suas previsões foram quase certas: a primeira produção da ópera foi assistida por um público muito restrito e ocorreu no palco do Teatro Máli. Ela foi realizada por alunos do Conservatório de Moscou. Apesar da recepção contida do público, o compositor ficou satisfeito com o espetáculo, sobretudo porque “sentiu uma satisfação interior com a própria composição”.
Ainda assim, Tchaikóvski continuava achando “Onêguin” inadequada para grandes palcos e não esperava que a ópera fosse encenada nos teatros imperiais das capitais. Porém, em Moscou, “Eugênio Onêguin” foi parar no Teatro Bolshoi.
Maria Kuznetsova-Benois como Tatiana na ópera “Eugênio Onêguin”
Os críticos moscovitas se dividiram quanto à opera. Alguns a consideraram longa demais, alegando que carecia de atos musicais marcantes, e que a música em si era monótona e enfadonha. Chegaram a acusar Tchaikóvski de não ter “ouvido musical”. Outros, porém, destacaram as encantadoras “imagens musical-dramáticas”, comparando-as a “finas aquarelas magistralmente executadas”.
P.I. Tchaikóvski. Kiev. 1890
Tchaikóvski, em carta ao compositor e seu aluno Serguêi Tanéiev, confessou: “Sobre a música, direi a você que, se alguma vez foi escrita música com sincero entusiasmo, com amor ao enredo e aos seus personagens, essa é a música de ‘Onêguin’. Eu derreti e tremi de um prazer inexprimível ao escrevê-la. E, se no ouvinte repercutir ao menos a menor parcela daquilo que senti ao compor essa ópera, ficarei muito satisfeito e nada mais me será necessário”.
Depois do Teatro Bolshoi, a ópera “Eugênio Onêguin” se espalhou por todas as maiores cenas teatrais da Rússia. Também foi encenada em Praga e Hamburgo enquanto o compositor ainda estava vivo.
N.G. Rubinstein, pianista e maestro. Sob sua direção, a primeira produção da ópera “Eugênio Onêguin” estreou no Teatro Mali
Atualmente, “Eugênio Onêguin” é uma das obras centrais da história da ópera mundial e um dos pilares do repertório lírico do século 19. É encenada ano após ano nos maiores teatros do mundo, desde o Teatro Bolshoi até o Metropolitan Opera de Nova York, Royal Opera House de Londres e Opéra de Paris, além de integrar de forma constante as programações de casas de ópera na Europa, nas Américas e na Ásia, em produções tanto clássicas quanto contemporâneas.
Esta reportagem é uma versão resumida de um artigo originalmente publicado em russo na revista “Rússki Mir”