Por que a vanguarda russa se inspirou em ícones religiosos?
Colecionar ícones se tornou moda entre os artistas já na segunda metade do século 19. Os líderes da vanguarda Mikhail Larionov e Natália Gontcharova também eram colecionadores apaixonados de ícones e de gravuras “lubok” (tradicional arte popular), enxergando-os não somente como objetos religiosos, mas também como importantes fenômenos estéticos.
O início do século 20 também testemunhou um grande evento cultural na Rússia: a “revelação” de ícones antigos que haviam permanecido ocultos por séculos sob camadas de verniz de óleo de linhaça escurecido e, mais tarde, sob repinturas. A restauração da “Trindade”, de Andrei Rublev, em 1905, mostrou-se particularmente significativa. Uma vez limpos, os ícones foram revelados ao público como obras que apresentavam cores vibrantes, formas concisas e expressividade notável. Isso impressionou não apenas nos historiadores da arte, mas também artistas. Não é surpresa alguma, em pouco tempo, cada ícone tenha se tornado objeto de análise e reinterpretação.
Os artistas de vanguarda não tomaram emprestados os temas religiosos, mas sim os princípios de composição. Técnicas formais da pintura de ícones — há muito descartadas como “incorretas” sob a ótica da pintura acadêmica — retornaram subitamente em prol de “um novo tipo de arte”. Um exemplo é o conceito de “perspectiva invertida”, no qual as linhas convergem não para o fundo da pintura, mas em direção ao observador, criando a sensação de que a imagem se move em direção a quem a vê. Os vanguardistas adotaram essa técnica na busca por uma nova maneira de perceber o mundo.
Os artistas também se sentiam atraídos pela natureza estilizada da pintura de ícones.
As figuras e os objetos nos ícones carecem de volume e existem em um plano único. Essa rejeição da imitação do mundo tridimensional virou a base para vários movimentos de vanguarda. Além disso, os pintores de ícones usavam apenas cores puras e vivas (vermelho, azul, dourado) e contornos definidos, conferindo às imagens uma expressividade poderosa — qualidades que também serviram de inspiração a vanguarda russa.
Para muitos vanguardistas, particularmente Wassily Kandinsky e Kazimir Malevich, a arte era uma forma de conhecimento espiritual. Eles buscavam uma arte “pura”, livre dos fardos do cotidiano e da objetividade, assim como um ícone serve de janela para o reino divino. O famoso “Quadrado Negro” de Kazimir Malevich é frequentemente visto como uma espécie de ícone moderno — uma imagem abstrata que simboliza o “ponto zero da forma”, um novo começo e pura energia.
A teoria do “Raionismo” de Mikhail Larionov foi, inclusive, amplamente inspirada na pintura de ícones. O artista estabeleceu conscientemente uma conexão entre essa nova arte e os ícones; em 1913, ele chegou a organizar uma exposição simultânea de suas próprias obras de vanguarda e de ícones de sua coleção particular para destacar a afinidade entre eles. Os trabalhos de Natália Gontcharova nesse período, incluindo a série “Os Evangelistas” (1910–1911), fazem referência direta à imagética iconográfica, embora reinterpretada sob a ótica da vanguarda.
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