A “Madona de Taguil”: é verdade que os Urais possuem sua própria obra-prima de Rafael?

Janela para a Rússia (Foto: kostya6969/Getty Images; tohamina/Magnific; Museu Estatal de Belas Artes de Níjni Taguil)
Janela para a Rússia (Foto: kostya6969/Getty Images; tohamina/Magnific; Museu Estatal de Belas Artes de Níjni Taguil)
Entenda como uma suposta obra de arte original do renascentista Rafael Sanzio foi encontrada no sótão de um industrialista de Níjni Taguil.

O Museu de Belas Artes de Nijni Taguil ostenta uma obra curiosa: uma pintura intitulada “A Sagrada Família”, cuja autoria é atribuída — supostamente — a Rafael Sanzio.

Essa composição, conhecida como “Madona com Véu” ou “Madona de Loreto”, foi descoberta em 1924 no sótão da residência do industrialista abastado Anatóli Demidov.

Na tela empoeirada, lia-se a inscrição: “RAPHAEL. URBINAS. PINGEBAT. MDIX” (Rafael de Urbino. Pintado em 1509).

Demidov mantinha laços estreitos com a Itália, detinha o título de Príncipe de San Donato, era casado com uma sobrinha de Napoleão e possuía uma fortuna imensa. Portanto, havia motivos para supor que se tratasse de uma obra original.

Durante o período soviético, a pintura foi analisada pelo renomado restaurador e artista Igor Grabar. Segundo ele, tratava-se, de fato, de uma obra de Rafael, supostamente pintada para a igreja de Santa Maria del Popolo, em Roma. No entanto, Grabar observou a existência de dezenas de pinturas semelhantes e cópias da obra.

Museu Estatal de Belas Artes de Níjni Taguil
Museu Estatal de Belas Artes de Níjni Taguil

A pintura foi restaurada e exposta no Museu Estatal de Belas Artes Púchkin, em Moscou. Porém, nos anos 1970, outra “Madona” idêntica foi apresentada ao público no Museu Condé, na França, sob a alegação de que se tratava da obra original – a qual teria permanecido escondida por anos para sua preservação. De acordo com os proprietários, as obras exibidas ao público seriam, na verdade, cópias produzidas enquanto Rafael ainda estava vivo.

Diante disso, os historiadores da arte soviéticos retiraram a atribuição e devolveram a “Madona” a Níjni Taguil.

Museu Condé, França
Museu Condé, França

“Quase não restam dúvidas de que a original está na França”, afirma Viktoria Markova, especialista em Renascimento no Museu Estatal de Belas Artes Púchkin. Em sua opinião, a “Madona de Taguil” é uma cópia antiga, datada do século 16, e, por isso, também possui seu valor. “Existem várias cópias desse tipo pelo mundo”, observa a especialista.

Por outro lado, a história da arte registra diversos casos em que, com o avanço das tecnologias de pesquisa, especialistas e historiadores revisam suas opiniões e a atribuição de obras. Portanto, a “Madona de Taguil” ainda pode ter uma chance.

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