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5 artistas servos que se tornaram estrelas da Rússia Imperial

Janela para a Rússia (Foto: Domínio público, Hermitage)
Até meados do século 19, milhões de camponeses viviam como “servos” na Rússia — isto é, juridicamente e na prática ligados a proprietários de terras, sem quaisquer liberdades. Ainda assim, entre eles havia muitos artistas, e alguns conseguiram alcançar reconhecimento, pintando retratos de imperadores e da elite. Foram comparados a Ticiano e Rembrandt, embora não pudessem dispor livremente nem do próprio talento, nem da própria vida.

1. Vassíli Tropínin (1776–1857)

Autorretrato de Vassíli Tropínin, 1846
Domínio público

“Tropínin, servo do conde Morkov. Seu colorido lembra o de Ticiano”, lê-se na revista “Otechestvennye zapiski” do início do século 19. Ao seu pincel pertencem retratos célebres do historiador Nikolai Karamzin e do poeta Aleksandr Púchkin.

Portrait of A.S. Pushkin por Vassíli Tropínin. 1827
Domínio público

Tropínin foi o maior retratista de Moscou na primeira metade do século 19. Seu legado é imenso: ele produziu cerca de 3.000 retratos. Em suas obras, o pintor combinava solenidade e intimidade com maestria. Ficou especialmente conhecido por telas que mostram pessoas em atividades artesanais, como “A rendeira”, “O guitarrista” e “A bordadeira de ouro”.

Permaneceu servo do conde Irákli Morkov até os 47 anos. O proprietário o mandou para estudar na Academia de Belas-Artes, mas a liberdade só veio em 1823, quando o artista já era reconhecido como mestre. Tropínin se tornou acadêmico da Academia Imperial de Belas-Artes.

2. Orest Kiprénski (1782–1836)

Este é um dos fundadores do retrato romântico na Rússia. Por sua predileção pelo jogo de luz e sombra e pelos contrastes dramáticos, contemporâneos o chamavam de “Rembrandt russo”. Filho ilegítimo de um proprietário de terras com uma camponesa, nasceu servo, mas recebeu a liberdade ainda na infância. Desde jovem, demonstrava talento excepcional para a pintura e concluiu com distinção a Academia Imperial de Belas-Artes.

Autorretrato de Orest Kiprénski, 1828.
Domínio público

O auge de sua obra são as imagens românticas dos heróis da Guerra Patriótica de 1812 e o famoso retrato de Aleksandr Púchkin. Viveu muitos anos na Itália. Após a morte trágica de sua modelo e amiga, foi obrigado a deixar Roma. Mais tarde, retornou à Itália e se casou com a filha da falecida. Três meses após o casamento, morreu de pneumonia. Seu legado artístico transformou para sempre a retratística russa, conferindo-lhe profundidade e força emocional.

Alexander Pushkin. 1827
Domínio público

3. Grigóri Soroka (Vasíliev) (1823–1864)

Um dos mais talentosos alunos do pintor Aleksêi Venetsianov teve um destino profundamente trágico. Nascido servo em uma família camponesa, Grigóri recebeu, ainda na infância, o apelido “Soroka” (nome da ave “pega-rabuda” em russo), que mais tarde se tornou seu sobrenome. Ao perceber o talento do jovem, Venetsianov passou a ensiná-lo.

Self-portrait by G.Soroka, 1840-50s
Domínio público

Soroka pintava paisagens líricas, retratos e interiores, Suas obras se distinguem pela poesia e por uma percepção sutil do mundo. No entanto, jamais conquistou a liberdade: Venetsianov não conseguiu comprá-lo do proprietário Miliukov, e a alforria só veio após a abolição da servidão em 1861.

Reflection in a Mirror, circa 1850
Museu Russo

Reza a lenda que Soroka e Lídia, a filha mais velha de Miliukov, eram apaixonados um pelo outro e teria sido justamente por isso que o proprietário se recusava a conceder-lhe a liberdade. Após o fim da servidão, Soroka não teve meios para adquirir um lote de terra próprio, como era comum entre ex-servos. Por participação em um levante camponês, foi condenado a castigos corporais e acabou tirando a própria vida.

4. Andrei Voroníkhin (1759–1814)

Grande arquiteto e artista russo, um dos fundadores do estilo Império na Rússia. Voroníkhin nasceu em uma família de servos do conde Strôganov e, desde cedo, demonstrava talento para o desenho. Estudou pintura na oficina do iconógrafo Gavríla Iúchkov.

O jovem promissor foi enviado, junto com o irmão, para estudar pintura e depois arquitetura em Moscou e São Petersburgo. Para se sustentar, realizava pequenos trabalhos de pintura e restauração de afrescos na Lavra da Trindade de São Sérgio.

Andrey Voronikhin
Domínio público

Após obter a liberdade em 1786, Voroníkhin continuou sua formação na França e na Suíça, onde dominou não apenas a arquitetura, mas também a pintura decorativa. O ápice de sua carreira e sua principal obra foi a grandiosa Catedral de Kazan, em São Petersburgo, projetada entre 1801 e 1811. Mas Voroníkhin continuou sendo um artista talentoso: produziu diversos retratos (incluindo um famoso retrato do conde Strôganov), paisagens e pinturas de interiores.

View of the art gallery of Count P. S. Stroganov
Hermitage

5. Ivan Argunov (1729–1802)

Ivan Argunov é um dos fundadores do retrato intimista na Rússia. De seu pincel saíram retratos oficiais de nobres e da imperatriz Catarina 2ª. Mas a soberana não posou para o artista; Argunov teve permissão apenas para observá-la durante eventos no palácio. Ainda assim, Catarina elogiou o retrato pela semelhança e o levou consigo a Moscou para a coroação.

Supposed self-portrait. Late 1750s – early 1760s.
Domínio público

O seu “Retrato de uma camponesa desconhecida em traje russo” se tornou uma imagem clássica, símbolo da beleza camponesa na arte russa. Além da pintura, Argunov exercia funções de administrador na casa dos Cheremétiev e ensinava outros artistas servos.

Portrait of Catherine II, 1762
Domínio público

Seus filhos — Nikolai, Pável e Iákov — herdaram o talento e a profissão do pai. Ivan Argunov morreu em 1802, permanecendo servo do conde Cheremétiev até o fim da vida. A liberdade só foi concedida a seus filhos 14 anos depois. Pável se tornou arquiteto, e os outros dois, pintores.

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