Quanto custa para um estudante internacional estudar e viver na Rússia?
Quando eu estava arrumando minhas malas em Harbin, minha família e meus amigos colocaram um pacote de macarrão instantâneo e um envelope na minha mochila. No envelopem, lia-se: “Para seus estudos. E nem pense em passar fome!” Agora, quase um ano depois de ter começado meu mestrado na Faculdade de Jornalismo da Universidade Estatal de Moscou Lomonossov, eu entendo: você realmente não passará fome na Rússia se descobrir logo de cara para onde vai o seu dinheiro. Tentarei evitar tabelas entediantes e, em vez disso, fornecerei alguns números concretos.
A geografia do rublo: quanto custa cursar uma universidade?
Nesse sentido, a Rússia se parece com a culinária chinesa: em Pequim, o pato laqueado custa um preço, mas, em um pequeno restaurante de Sichuan, tem outro preço bem diferente. É a mesma coisa na Rússia. Tudo depende se você tem como cenário o Kremlin ou os Montes Urais.
Se você for para Tomsk ou Níjni Nôvgorod, um ano na universidade custará de 210.000 a 500.000 rublos (cerca de US$ 2.800 a US$ 6.700). Uma ninharia comparado a uma faculdade nos Estados Unidos ou na Europa [mas um valor considerável pensando na realidade brasileira — nota de edição]. Se o seu objetivo for um diploma da Universidade Estatal de Moscou, MGIMO (Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou) ou da HSE (Escola Superior de Economia) em São Petersburgo, prepare-se para desembolsar entre 540.000 e 1,25 milhão de rublos (US$ 7.200 a US$ 16.700) por ano. Além disso, se você também estiver cursando programas em inglês, o valor pode chegar a um milhão e meio de rublos (aproximadamente US$ 21.000). Sim, a “marca Moscou” é cara. Mas esse diploma também é mais valorizado no mercado de trabalho, especialmente na Ásia.
Uma dica especial para os mais exigentes: existem filiais regionais das melhores universidades. O mesmo curso de HSE em Perm custa quase metade do que em Moscou, e todos recebem o mesmo diploma.
Para que você tenha uma ideia melhor da diferença, aqui estão alguns valores de referência para estudantes internacionais no ano letivo de 2025/2026:
- Moscou: Universidade Estatal de Moscou (humanas) – a partir de 540.000 rublos (em torno de US$ 7.220); Faculdade de Direito – a partir de 720.000 rublos (US$ 9.624); HSE – a partir de 560.000 rublos (US$ 7.485)
- São Petersburgo: Universidade Estatal de São Petersburgo – a partir de 307.300 rublos (US$ 4.107), HSE-SPb – a partir de 450.000 rublos (US$ 6.015)
- Kazan: Universidade Federal de Kazan – de 175.920 a 439.980 rublos (US$ 2.351 a US$ 5.882), dependendo do curso
- Novosibirsk: NSU – a partir de 450.000 rublos (US$ 6.015)
- Tomsk: TSU – de 216.300 a 427.400 rublos (US$ 2.890 a US$ 5.715)
Como você pode ver, a diferença entre as capitais e as regiões é de duas ou até três vezes. E isso é apenas o começo.
Onde morar: do alojamento estudantil a um apartamento compartilhado
Esta é a maior dor de cabeça depois da prova de língua russa.
Cenário um (econômico): dormitório. Nas regiões, uma cama em um quarto triplo custa de 1.630 a 2.060 rublos (US$ 22 a US$ 28) por mês. Em Moscou, por exemplo, na lendária DAS (Casa de Pós-Graduandos e Estagiários, em português) da Universidade Estatal de Moscou, o preço da acomodação com banheiro compartilhado é de 120 rublos (US$2), enquanto na FDS (Filial da Casa dos Estudantes) chega a 7.140 rublos ($96). Na cozinha de ambos, os estudantes costumam compartilhar receitas de seus países de origem, além de histórias — um intercâmbio cultural que cabe no orçamento.
Cenário dois (a variante “adulta”): alugar um apartamento. É aqui que começa o verdadeiro drama de Moscou. Para um apartamento de um quarto em uma área residencial, a 40 minutos de metrô da universidade, você pagará entre 47.000 e 87.700 rublos (US$ 629 a US$ 1.172) por mês. Em São Petersburgo, o mesmo apartamento custa de 15.000 a 60.000 rublos (US$ 200 a US$ 800). Em Kazan, pode-se encontrar um apartamento semelhante por 18.000 a 65.000 rublos (US$ 240 a US$ 870) e, em Tomsk, por apenas 15.000 a 54.600 rublos (US$ 200 a US$ 730).
Meu conselho: não alugue sozinho. Encontre um colega de quarto entre os estudantes russos mais experientes. Isso trará tranquilidade e eles ajudarão com o contrato e a entender por que sua água quente foi cortada.
Comida: trigo-sarraceno, shawarma e a crise do arroz
A primeira coisa que fiz em Moscou foi encontrar um mercado de “comida chinesa” na Rua Profsoyuznaya. A vida era sem graça sem molho de soja. Mas, se você focar na culinária local, a Rússia é um paraíso para os econômicos.
Cozinhar para si mesmo é ridiculamente acessível. Se você seguir uma dieta de “vegetais, frango e grãos”, sua conta mensal no Pyaterochka (uma rede de supermercados econômicos) ou no mercado será de 8.000 a 12.000 rublo (US$ 107 a US$ 160). Se você comer no refeitório estudantil da Universidade Estatal de Moscou (a comida lá é deliciosa e as porções são enormes), o almoço custará de 250 a 350 rublos (US$ 3,50 a US$ 4,70). E, se você estiver se sentindo para baixo e preguiçoso, o bar de shawarma — que fica aberto 24 horas — é uma salvação por apenas 250 rublos (US$ 3,50).
Transporte: para que pegar um táxi quando o metrô parece um palácio?
Eu amo o sistema de metrô de Moscou. Os trens passam a cada 90 segundos e as estações são como museus. Um bilhete mensal para estudantes custa 985 rublos (quase US$ 14) e, se você precisar se locomover pela região metropolitana de Moscou, sai por 1.390 rublos (US$ 19). Isso significa viagens ilimitadas por essa enorme cidade. Na China, em grandes cidades como Pequim ou Xangai, um passe mensal para estudantes custa praticamente o mesmo ou um pouco mais, porém, o metrô de Moscou é, subjetivamente, mais limpo e mais rápido.
Nas regiões, se a cidade for compacta (como Tomsk ou Iaroslavl), geralmente é possível se locomover de ônibus ou micro-ônibus com cerca de 40 rublos (US$ 0,54) por viagem.
Saúde: seguro como passaporte para um mundo de nervos saudáveis
Para nós, estrangeiros, a medicina russa funciona sob o princípio de “pague o plano e durma tranquilo”. É barato, mas essencial. O seguro saúde voluntário custa em torno de 5.000 a 12.000 rublos (aproximadamente US$ 67 a US$ 160) por ano e lhe protege de coisas incômodas como resfriados, gripes e dores de garganta repentinas.
O que está incluso? Uma visita domiciliar do médico, uma consulta na clínica (sim, você terá que pegar fila, porém, é de graça) e cuidados odontológicos básicos. O que se pode esperar da medicina russa? Rigor. O médico não vai te mimar, mas vai te dar o diagnóstico correto. Uma amiga minha da Índia foi hospitalizada com febre — e ficou chocada ao ver que lhe deram soro na veia e fizeram todos os exames sem que lhe pedissem dinheiro.
Rússia vs. o mundo: onde o bolso sofre mais?
Serei honesto. A Europa é tentadora, mas o preço é bem diferente. Na Alemanha, por exemplo, a mensalidade é relativamente gratuita, porém, considerando a taxa semestral mais acomodação, seguro e alimentação, espere gastar pelo menos US$ 4.000 por mês (aproximadamente 300.000 rublos). Ao longo de um ano, isso equivale a um valor semelhante ao de uma universidade particular em Moscou e ao aluguel de um apartamento, mas, na Rússia, você tem pelo menos a chance de conseguir um desconto em alojamentos estudantis e economizar dinheiro.
Mas e na Ásia? Se você for para Seul ou Tóquio, os preços dos apartamentos serão comparáveis aos de Moscou e, às vezes, até mais altos. Já as mensalidades em uma boa universidade particular no Japão, variam de 1,3 a 2,1 milhões de ienes (US$ 8.140 a US$ 13.149, ou aproximadamente 609.570 a 984.690 rublos) por ano.
Resumindo: um ano em Moscou, estudando em uma universidade de ponta e morando em um alojamento estudantil, custará de 600.000 a 800.000 rublos (8.000 a 11.000 euros). Isso é de duas a três vezes mais barato do que um ano em Londres e aproximadamente comparável a um ano em uma boa universidade regional na China para um estrangeiro.
Fazendo as contas
Vim para cá com um envelope dos meus parentes e a esperança de dominar o idioma russo. Desde então, quase um ano se passou. O envelope está vazio, minha cabeça ainda luta com os casos gramaticais, entretanto, quando caminho pela Rua Mokhovaya e vejo o Kremlin, percebo — valeu a pena. A Rússia não é sobre ser um lugar “barato e alegre”; é sobre ser “acessível e de alta qualidade”, se você estiver disposto a entender as regras.
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