Por que Catarina 2ª, a Grande, decidiu educar as mulheres russas?

Janela para a Rússia (Foto: Museu de Ulianovsk; Museu Russo; Domínio público)
Janela para a Rússia (Foto: Museu de Ulianovsk; Museu Russo; Domínio público)
Sob o reinado da imperatriz Catarina 2ª, um experimento social ambicioso tentou moldar uma nova elite feminina desde a infância, longe da influência familiar. Em um internato rigoroso inaugurado em 1764, meninas da nobreza passavam doze anos praticamente isoladas, estudando de tudo, de etiqueta a física. A iniciativa não só transformou destinos individuais, como ajudou a redefinir o papel das mulheres na sociedade russa.

A imperatriz russa Catarina 2ª, a Grande (1729–1796), se interessava profundamente pelas ideias sociais de John Locke, Voltaire, Denis Diderot e Jean-Jacques Rousseau. Ela tinha o sonho não só de governar um vasto império, mas também queria liderar súditos instruídos e responsáveis. Na Rússia, onde o nível de alfabetização era baixíssimo, era essencial educar as crianças desde pequenas — de preferência, afastando-as do ambiente que pudesse impedir esse desenvolvimento. Foi assim que nasceu uma das mais importantes reformas educacionais na história russa criada por Ivan Betskôi.

Betskôi era uma figura extraordinária. Altamente educado, iniciou a carreira no serviço diplomático, passou muitos anos na Europa e depois se tornou conselheiro da imperatriz para assuntos educacionais.

Coleção privada “Diderot e Catarina, a Grande”, de Gunnar Berndtson, 1893
Coleção privada

O documento central da reforma foi o “Estatuto Geral para a Educação de Jovens de Ambos os Sexos”, aprovado pela imperatriz em março de 1764. O documento delineava os princípios e objetivos fundamentais da reforma. Em geral, os planos eram ambiciosos: a criação de uma “nova geração” por meio da educação.

Acreditava-se que, isolando a criança de uma “sociedade viciosa” e criando-a em um ambiente ideal, seria possível formar um indivíduo livre dos antigos vícios. Além disso, para surpresa dos contemporâneos, segundo o autor da reforma, a educação das meninas era tão importante quanto a dos meninos. Assim surgiu a ideia de uma instituição educacional exclusivamente feminina — a Sociedade Educacional Imperial para Donzelas Nobres, mais tarde conhecida como Instituto Smólni para Donzelas Nobres.

O internato foi inaugurado em 1764 e admitia apenas filhas de nobres hereditários a partir dos 6 anos de idade. As candidatas precisavam apresentar documentos que comprovassem sua origem, além de passar por exames de admissão em francês e russo e demonstrar conhecimentos básicos de educação religiosa.

Museu Russo “Intercessão da Mãe de Deus pelas pupilas do Instituto Smólni”, de Aleksêii Venetsianov, 1832-1835
Museu Russo

Ao entregar a filha à instituição em idade tão precoce, a família assumia por escrito o compromisso de não levá-la de volta para casa antes dos 18 anos. Não havia férias nem visitas prolongadas, e a correspondência era submetida à rigorosa censura.

As alunas não aprendiam apenas música, dança, literatura e economia doméstica, mas também história universal, história da arte, geografia, matemática e até física com enfoque prático.

Os métodos de ensino deveriam ser os mais avançados para a época: castigos corporais eram proibidos, incentivava-se o aprendizado “sem coerção, levando em conta os interesses e as aptidões da criança”; e os educadores deveriam ser “pessoas íntegras e exemplares”. Na prática, nem tudo funcionava de forma tão ideal. Mas o resultado foi impressionante: a instituição formou mulheres notáveis, de damas de companhia da corte à primeira diplomata russa, Dária Lieven.

Museu Russo 1772-1776. Smolianki (pupilas do Instituto Smolni) por Dmítri Levitski
Museu Russo

As mulheres instruídas eram vistas como um “pilar sólido do trono e da prosperidade do Estado”. Depois de formadas, podiam se tornar esposas exemplares, capazes de administrar o lar, educar filhos cultos e contribuir para o refinamento dos costumes sociais.

Museu Russo 1772-1776. Smolianki (pupilas do Instituto Smolni) por Dmítri Levitski
Museu Russo

O Instituto Smólni para Donzelas Nobres abriu caminho para a criação de uma ampla rede de ginásios e institutos femininos em todo o país. No fim do século 19, a educação para mulheres na Rússia deixou de ser privilégio de poucas e se tornou uma prática mais acessível e difundida.

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