Como é a vida de um indiano no norte da Rússia? Veja fotos
“Pensando no meu futuro, minha mãe encontrou um anúncio no jornal para estudar medicina na Rússia. Ela guardou o anúncio, mas não me disse nada; queria que eu escolhesse meu próprio caminho na vida. E eu escolhi medicina, embora não houvesse médicos na nossa família antes de mim”, lembra Joe Aloysius, do estado de Kerala, no sul da Índia.
Há onze anos, Aloysius se mudou para o norte da Rússia para estudar medicina em Arkhanguelsk. A maioria de seus compatriotas voltou para casa após a formatura. Mas ele ficou e hoje mora em Severodvinsk, também na mesma região.
“Na Índia, a educação paga é muito cara e, além disso, devido ao sistema de castas, é difícil entrar na universidade e ainda ter que validar o diploma, perdendo, assim, dois anos”, conta Joe. “Nesses dois anos, eu já me tornei médico aqui. E é por isso que aconselho meus amigos indianos: por que vocês estão passando perrengue? As condições são muito melhores na Rússia. Venham para Arkhanguelsk!”
Aos 28 anos, Aloysius já é um cirurgião respeitado e até astro da TV: canais locais apresentam reportagens sobre ele e, no ano passado, Joe participou do programa ‘Rabotiagui’ (‘Trabalhadores’) no canal federal ‘Piatnitsa’ (‘Sexta-feira’).
Imersão na vida russa
A primeira coisa que Joe aprendeu sobre a comida e os costumes locais foi que, no Norte Russo, as pessoas consomem principalmente peixe cru ou salgado. “Na Índia, tudo era frito e com temperos, mas, lá, quase ninguém os usa.”
Tempos depois, no refeitório perto do dormitório, o indiano experimentou um filé de frango com molho de smetana (sour cream). O molho à base de creme, em vez do habitual curry ou chutney, foi uma surpresa, mas ele diz ter gostado. Na Índia, o arroz é praticamente o único cereal que as pessoas consomem; assim sendo, outra descoberta na Rússia foi o trigo-sarraceno. Mas, por enquanto, o seu prato favorito ainda é a sopa borsch.
“Através da comida, entrei na cultura russa e me adaptei rapidamente. As pessoas me ajudaram, mas eu também estudei muito; eu ficava atento, ouvia como as pessoas falavam ao meu redor e tentava praticar o máximo possível.”
Dificuldades com a língua russa
No início, ele tinha dificuldade com os patronímicos. Era impossível para um recém-chegado indiano lembrar e pronunciar o nome completo de um professor; no caso de Joe, um certo “Viatcheslav Stanislavovitch”. Por isso, os alunos tinham até permissão para se dirigir aos professores simplesmente como “senhor” e “senhora”.
“Todo mundo me elogia pelo meu conhecimento da língua, mas eu ainda cometo erros: recentemente, estava preenchendo documentos para comprar remédios e, em vez de ‘álcool de cânfora’ [‘kamforni spirt’], escrevi ‘álcool reconfortante’ [‘komfortni spirt’]. Meus colegas até brincaram que o conforto seria determinado pela quantidade!”
Joe aprendeu russo em Arkhanguelsk e, por isso, passou a falar como um nativo local, com um leve sotaque do norte e a pronúncia característica do ‘o’ átono.
Vida no Norte
Antes de chegar ao norte da Rússia, Joe foi informado de que precisaria comprar um casaco de inverno. Porém, ele percebeu que os casacos mais grossos da Índia ainda eram leves demais para a Rússia. Ao chegar, o frio rapidamente se instalou em Arkhanguelsk e, de repente, os termômetros bateram -37°C, com neve na altura dos joelhos.
“Só tínhamos visto neve em filmes, com as pessoas jogando neve umas nas outras sem luvas. Corremos para jogar também. Mas nossas mãos ficaram dormentes e pensamos: ‘Ah, isso é coisa de filme; precisamos comprar luvas!’ Com o tempo, percebi que prefiro o frio ao calor. No frio, você pode se agasalhar, mas, quando está quente, não tem como escapar.”
No inverno, Arkhanguelsk tem apenas de 3 a 4 horas de luz do dia, mas Joe garante que está acostumado e se sente confortável com isso; isso não o impede de dormir o suficiente. Mas ele admite que foi difícil no começo: “Está escuro de manhã e quando você chega em casa do trabalho, já está escuro de novo”.
“Os próprios russos dizem que, quando há pouca luz, fica triste. Mas eu tenho tanto trabalho que nem percebo. Quando você está ocupado com o trabalho que ama, dia e noite – tudo passa muito rápido.”
Arkhangelsk em 1º na Rússia
“Quando morava na Índia, eu não conhecia quase nada sobre a Rússia: apenas a Praça Vermelha e o presidente Vladimir Putin. Comecei a viajar pelo país durante os feriados e depois de férias. Já visitei Moscou, mas não é para mim: muito barulho, agitação, as pessoas não se olham e todos estão correndo atrás de dinheiro. Já estive em São Petersburgo cinco vezes; é linda, gostei muito. Já estive em Kirov e achei que é parecida com Arkhanguelsk, uma cidade normal. Fui para Kaliningrado e foi muito bom — eu até me mudaria para lá, mas lá não tem o bônus salarial do norte.”
Joe planeja continuar viajando pela Rússia. Porém, ele afirma que, para morar, ainda escolheria a região de Arkhanguelsk. Segundo ele, já conquistou amigos, colegas e professores a quem pode pedir conselhos por lá.
Desde 2022, Aloysius trabalha como cirurgião em um hospital em Severodvinsk, a 40 km da cidade de Arkhanguelsk. O médico indiano já é bem conhecido na região, e os pacientes frequentemente o procuram para outros tratamentos. “Eles dizem que raramente encontram um médico tão alegre e amigável.”
No seu tempo livre, Joe gosta de cantar e tocar violão – ele adora música russa e já se apresentou em eventos, tanto na universidade quanto na cidade.
“Certa vez, cantei a música ‘Válenki’ com um traje folclórico. Foi um sucesso", ri Joe, acrescentando que, durante sua estadia na Rússia, já se tornou “quase russo”.
A versão completa desta reportagem foi publicada em russo na revista “Nation”.
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