Por que toda garota russa sonhava em trabalhar como dama de companhia?

Museu Russo
Museu Russo
Por trás de uma fachada esplendorosa, escondia-se a rotina diária espartana e o árduo trabalho das mulheres nascidas em famílias nobres.

No Império Russo, existia um quadro diversificado de servas da tsarina bem antes de o cargo de “dama de companhia” ser estabelecido. É verdade que as boiardas da corte geralmente não eram mais jovens ou solteiras, mas também eram recrutadas de famílias nobres. Suas responsabilidades eram extensas: administravam a ala feminina do palácio do tsar, supervisionavam o tesouro, o artesanato e os aposentos da tsarina. Com isso, seu salário anual excedia significativamente o dos servos homens comuns. O cargo de “freilin” (do alemão “Fräulein”, que significa “dama de honra”) foi oficialmente estabelecido na Rússia no início do século 18 por Pedro, o Grande. Somente mulheres solteiras, muitas vezes jovens membros de famílias nobres e de alta posição, podiam se tornar “damas de honra”.

A “Tabela de Patentes” de Pedro, o Grande, mencionava cinco patentes estritamente reservadas para mulheres: a Oberhofmeisterina (“grande senhora da corte”) ocupava a posição mais alta entre todas as damas, seguida pela hofmeisterina (“senhora da corte”), stats-dama (“dama de companhia”), kamer-freilin (“camareira”) e freilin (“dama de honra”). Sob Nicolau 1º, o salário de uma “dama de honra” era de 600 rublos por ano, enquanto o de uma “dama de companhia” chegava a mil rublos ao ano. No entanto, a parte verdadeiramente valiosa do seu trabalho eram os presentes: a imperatriz podia recompensar as suas favoritas com joias ou lembranças caras.

Museu Russo Catarina 2ª
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Os requisitos para as damas de companhia eram rigorosos: em princípio, modos impecáveis ​​e conhecimento perfeito de etiqueta (por exemplo, quantos passos dar em uma recepção ou para quem e com que ângulo se curvar). Uma educação ampla e conhecimento das fofocas do palácio eram igualmente valorizados. Quanto à aparência, as mulheres da realeza normalmente preferiam as inteligentes, mas sem brilho. Já a beldades eram geralmente escolhidas entre as damas de companhia a pedido do imperador, sobretudo se ele mantivesse um caso ou relacionamento romântico com elas. Nicolau 1º e Alexandre 2º tiveram casos de longa duração com suas damas de companhia.

As damas de companhia ficavam a serviço de suas senhoras por uma semana: elas cuidavam de suas rotinas matinais, acompanhavam-nas em caminhadas, liam e entretinham os convidados com conversas. Seus deveres variavam de escrever cartas e fazer recados a atender ao menor capricho da realeza. Seu dia começava às 6h da manhã e terminava tarde da noite, sendo os fins de semana opcionais.

Janela para a Rússia (Foto: Domínio público) As “favoritas” Anna Narichkina, Maria Perekusikhina e Anna Protasova
Janela para a Rússia (Foto: Domínio público)

Apesar das dificuldades, o cargo era prestigioso. Abria as portas para um casamento brilhante, já que uma dama de companhia circulava constantemente na alta sociedade. Ela também recebia um dote substancial do tesouro.

O corte do vestido da dama de honra (o “estilo russo”, com corpete e cauda) foi estabelecido em um decreto de Nicolau 1º em 1834. A cor denotava status: verde para damas de companhia, bordô para as damas de honra da imperatriz e azul-celeste para as damas de honra das grã-duquesas. Uma marca distintiva era o ‘cifra’ – um monograma de ouro adornado com diamantes com as iniciais da senhora a quem servia. Era usado fixado a um laço azul no lado esquerdo do peito.

Janela para a Rússia (Foto: Hermitage) Cifra e “Retrato da Dama de Honra Sofia Vassilievna Orlova-Denisova”, de Pimen Orlov
Janela para a Rússia (Foto: Hermitage)

Muitas damas de companhia também se tornavam amigas íntimas e confidentes das imperatrizes. Isso trazia outra vantagem para o cargo: influência na corte devido à proximidade com a família imperial. Catarina 2ª era conhecida por seu relacionamento próximo com suas damas de companhia: Maria Perekusikhina estava constantemente ao lado da imperatriz, auxiliando-a em tudo, desde as vestimentas da manhã e da noite até conselhos sobre uma ampla gama de assuntos; Anna Narichkina protegia rigorosamente seus casos amorosos e a ajudava nos relacionamentos; e Anna Protasova supervisionava o corpo de damas de companhia e servos, mantendo a estrutura funcionando como um relógio.

Domínio público Sonia Orbeliani na Sala Malva do Palácio de Alexandre
Domínio público

Há também exemplos de imperatrizes que se dedicaram às suas damas de companhia, literalmente, até a morte. Por exemplo, quando Sofia Orbeliani, dama de companhia de Alexandra Feodorovna, a última imperatriz russa, adoeceu gravemente, esta a acolheu no palácio, pagou por seu tratamento e até encomendou uma carruagem especial para a sua viagem. Após a morte de Orbeliani, Feodorovna organizou pessoalmente o funeral.

A instituição das damas de companhia deixou de existir após a Revolução de 1917, juntamente com a monarquia.

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