Quem eram os araps da corte?
Arap é um termo russo hoje obsoleto, usado entre os séculos 17 e 19 para designar negros ou mouros geralmente de ascendência africana. No Império Russo, o termo era aplicado sobretudo a servos e cortesãos negros que serviam junto à corte imperial, conhecidos como “araps da Corte Imperial”.
Os primeiros araps surgiram em Moscou no século 17. Em sua maioria, eles eram “presentes exóticos” trazidos por embaixadas orientais ou por diplomatas europeus que desejavam impressionar o tsar. A situação mudou com a transformação da Rússia em império. Pedro 1º, o Grande, que desejava integrar o país ao código cultural pan-europeu, passou a adotar características da monarquia europeia que estavam em voga. Entre eles, estava a presença de jovens servos negros na corte.
Retrato do Grão-Duque Pável Petrovitch, por Stefano Torelli, 1765-1766
Por encomenda de Pedro, artistas estrangeiros (como Adrian Schoonebeek) criaram uma série de retratos nos quais o tsar aparece ao lado de um jovem negro. Essas imagens estabeleceram um padrão de prestígio. Pouco depois, possuir um jovem negro — fosse real, ou apenas representado em retrato — se tornou moda na alta aristocracia, um sinal de proximidade com o trono, riqueza e familiaridade com os costumes ocidentais. As imperatrizes Catarina 1ª, Isabel e também o futuro imperador Paulo 1º aparecem em retratos cerimoniais acompanhados por servos negros. Já a imperatriz Anna possui uma representação escultórica em que um homem negro lhe entrega um orbe (símbolo do poder monárquico).
Retrato de Catarina 1º com um jovem arap, por Ivan Adólski
O status dos araps na corte era relativamente alto. Tratava-se de funcionários oficialmente admitidos no serviço estatal, com atribuição de patentes e salário fixo, que podia chegar a 600–800 rublos por ano — uma quantia considerável para a época. Os trajes dos araps eram verdadeiras obras de arte: calças largas vermelhas ou azuis, casacas bordadas a ouro, turbantes branquíssimos com penas de avestruz ou gorros orientais. O custo de um único conjunto podia equivaler ao salário anual de um funcionário de nível médio.
Os araps costumavam viver no palácio real, aprendiam a ler e escrever em russo e estudavam línguas estrangeiras. Sua principal função era projetar a magnificência soberana. Eles acompanhavam o imperador em aparições públicas, abriam portas, participavam de mascaradas da corte. Uma condição obrigatória para o serviço na corte era a conversão à ortodoxia.
Traje cerimonial de um arap da corte
A prova mais evidente das oportunidades únicas que este serviço oferecia foi o destino de Abram Petrovitch Gannibal, que entrou na história como o “arap de Pedro, o Grande”. Após receber uma educação brilhante, Gannibal fez carreira como engenheiro militar e alcançou o posto de general do exército. Assim, desfez a ideia de que os araps eram apenas elementos decorativos da corte. Sua história se tornou emblemática e foi posteriormente imortalizada por seu bisneto, o poeta Aleksandr Púchkin.
Retrato de Pedro, o Grande, com seu arap
No século 19, o quadro da Companhia de Araps da Corte (mais tarde denominada de “araps de Sua Majestade”) passou a ser regulamentado com rigidez. Seu número variava entre 8 e 20 pessoas. Os candidatos eram selecionados com extremo rigor: exigia-se pele negra, estatura elevada e aparência imponente. Era comum que candidatos ao posto de arap da corte fossem marinheiros negros de navios que atracavam em portos russos ou filhos de casamentos mistos.
Desse modo, os araps permaneceram no círculo direto da família imperial por mais de três séculos. Até a Revolução de 1917, sua presença em recepções oficiais e bailes era considerada um sinal extra de prestígio cerimonial. A chegada dos bolcheviques ao poder pôs fim também a essa tradição. Memorialistas da época chegaram a escrever que as portas vazias dos palácios — já sem ninguém para abri-las solenemente — tornaram-se uma metáfora do colapso não apenas da pompa imperial, mas de todo o Império Russo.
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