Por que o casamento camponês na Rússia era uma verdadeira saga (e um negócio também)?
O casamento camponês russo não era apenas uma celebração, mas uma verdadeira empreitada cujo objetivo era proteger os noivos, garantir o nascimento de filhos saudáveis e assegurar a prosperidade da nova família. Algumas dessas tradições, em versões simplificadas, chegaram até os dias de hoje.
O casamento começava com o pedido formal. Esse ritual dava início a uma longa sequência de cerimônias e costumes, na qual era fundamental fazer tudo “de acordo com as regras”. Caso contrário, a família poderia ganhar má reputação ou até mesmo atrair infortúnios para os recém-casados.
O pedido de casamento e o acordo entre as famílias
Depois que a família do noivo decidia com qual família queria se unir, os intermediários encarregados de negociar o casamento entre as famílias, chamados de casamenteiros, eram enviados à casa da noiva. Eles podiam ser parentes do noivo, seu padrinho ou alguma pessoa respeitada na aldeia, conhecida por sua eloquência.
O pedido de casamento era feito à noite. Os casamenteiros sempre seguiam um caminho mais longo e indireto até a casa da noiva, em silêncio. Ao chegar, comportavam-se com extrema cautela e educação. Tanto a noiva quanto o noivo eram mencionados de forma figurada, por expressões como “mercadoria e negociante”, “duas porções de massa” e outras semelhantes.
“Casamento Tcheremis”, ou “O Rapto da Noiva” (1908), de Nikolai Fechin
Se as negociações fossem bem-sucedidas, a família da noiva visitava a casa do noivo para avaliar suas condições de vida. Não era raro que os pais do noivo pegassem emprestados utensílios domésticos dos vizinhos, armazenassem grãos extras ou até trouxessem mais animais para a propriedade, criando a imagem de uma família especialmente próspera.
Em seguida, discutia-se o dote. Se todas as negociações terminassem de forma satisfatória, realizava-se na casa da noiva a cerimônia do acordo matrimonial. Os pais da jovem preparavam um banquete, acendiam velas e faziam orações. Depois, os casamenteiros colocavam luvas ou seguravam tortas nas mãos e batiam as mãos uns dos outros, gesto que simbolizava a confirmação definitiva do casamento.
Após esse acordo, em muitas aldeias a noiva começava a lamentar a despedida de sua vida de solteira, dedicava-se à preparação do enxoval e quase não aparecia mais em público até o dia do casamento.
Durante esse período, ela costurava o enxoval e preparava presentes para a família do noivo. As amigas a ajudavam enquanto cantavam canções tradicionais. Em algumas regiões, o noivo podia visitá-la, levando nozes e priániki (biscoitos tradicionais russos) para ela e suas amigas. Os amigos do noivo também podiam acompanhá-lo. Enquanto as amigas da noiva cantavam músicas alegres e os rapazes faziam piadas e brincadeiras, a noiva chorava amargamente.
A cerimônia religiosa
Este era o dia mais importante e repleto de acontecimentos.
Pela manhã, parentes e vizinhos se reuniam na casa do noivo, chegando em carroças decoradas para a ocasião. A pessoa mais próxima do noivo recebia uma toalha cerimonial amarrada à cintura, além de um chicote, um pão e um ícone religioso. Ela passava então a exercer a função de principal organizador da cerimônia.
Em seguida, o cortejo nupcial seguia em direção à casa da noiva.
Ao longo do caminho, diferentes obstáculos eram criados para o cortejo, e exigia-se um resgate para permitir a passagem: bloqueavam-se estradas, acendiam-se fogueiras e até disparavam-se tiros para o alto. Enquanto isso, as casamenteiras espalhavam sementes de linho.
“A Chegada do Feiticeiro a um Casamento Camponês” (1875), de Vassíli Maksimov
As amigas ajudavam a noiva a se vestir, cantavam músicas, desfaziam sua trança de solteira, adornavam-na e cobriam sua cabeça com um grande xale, deixando-a à espera do noivo ou de seu representante.
A chegada do cortejo do noivo parecia uma verdadeira encenação teatral. Os parentes da noiva fechavam os portões e trancavam as portas. O representante do noivo precisava bater por muito tempo e fingir que tentava derrubar os portões. Em seguida, podia ocorrer o resgate simbólico da noiva, de sua trança ou até do lugar de honra à mesa.
“O Casamento” (1904), de Nikolai Bogdanov-Belski
Depois disso, os noivos eram acomodados sobre um casaco de pele virado do avesso — símbolo de riqueza e fertilidade — e recebiam a bênção dos pais da noiva.
Depois, o noivo colocava a noiva na carruagem, e o cortejo nupcial partia para a igreja. Ao longo do caminho, os obstáculos planejados surgiam novamente.
O banquete
Após a cerimônia religiosa, a casamenteira trançava os cabelos da noiva em duas tranças, prendia-os de acordo com o costume das mulheres casadas e colocava um adorno de cabeça de mulher casada (povóinik), cobrindo-o com um lenço.
Os recém-casados então seguiam juntos, na mesma carruagem, para a casa do noivo.
À mesa do casamento, sentavam-se sobre um casaco de pele ou almofadas, comiam usando a mesma colher e bebiam da mesma taça. A refeição era abundante. Nesse momento, a noiva já não deveria mais entoar lamentos. Os convidados cantavam músicas de louvor aos recém-casados, faziam brincadeiras e celebravam alegremente.
Cartão postal “Festividades de Casamento” (1912), de I.M. Lvov
Terminada a refeição, os jovens eram conduzidos a um quarto separado. Parentes do noivo deitavam-se sobre a cama e exigiam um resgate da noiva. Depois disso, ela retirava as botas do marido e encontrava dinheiro escondido dentro delas.
Os recém-casados eram deixados sozinhos por cerca de meia hora. Passado esse tempo, a casamenteira os chamava para tomar chá. Depois do chá, todos iam dormir.
Os rituais após o casamento
Na manhã seguinte, os recém-casados eram despertados pelo barulho de potes de barro quebrados contra a porta do quarto — um símbolo da perda da virgindade — e pelo som de baldes sendo batidos.
Todos tomavam chá e, em seguida, os convidados espalhavam lixo e penas pela casa. A jovem esposa então precisava varrer tudo. Para isso, recebia um pedaço de vassoura cortada. Nesse momento, ajoelhava-se diante da sogra e pedia que lhe ensinasse a varrer corretamente. Só então a sogra lhe entregava uma vassoura de verdade. Muitas vezes, junto com o lixo, também eram jogadas moedas no chão.
Depois da limpeza, a jovem esposa era enviada para buscar água. Toda a aldeia se reunia para observar como ela realizaria a tarefa. As pessoas tentavam atrapalhá-la, derrubavam a água dos baldes e procuravam molhar tanto a recém-casada quanto umas às outras.
Em seguida, acontecia mais um banquete. Os participantes passeavam pelas aldeias em carruagens ou trenós ornamentados e cantavam canções de amor.
O casamento terminava com visitas a outros parentes. Depois disso, a cerimônia era considerada oficialmente encerrada, e começava a rotina de trabalho do dia a dia para a jovem esposa.
Durante séculos, foi dessa forma que os camponeses russos celebraram a formação de uma nova família. Cercados por canções, rituais e crenças que misturavam a tradição cristã e antigas práticas pagãs, esses costumes continuaram a fazer parte da vida no campo até o início do século 20, quando as transformações da sociedade e a chegada dos bolcheviques ao poder começaram a mudar também as antigas tradições familiares.
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