“Não vá para a cama de barriga cheia!”: conheça as superstições russas sobre comida

Galeria Tretiakov “Uma Família Camponesa Antes do Jantar” (1824), de Fiódor Solntsev.
Galeria Tretiakov
Carregar uma torrada de centeio no bolso traz proteção? E por que a batata era apelidada de “maçã do diabo”? Entenda estas e outras crendices populares.

Antes de comer, os camponeses lavavam as mãos e o rosto. Acreditava-se que comer com as mãos sujas permitia a entrada de espíritos malignos. Era proibido xingar ou rir alto à mesa, ou falar mal dos pratos servidos pela anfitriã.

Após o jantar, os pratos tinham que ser retirados da mesa; caso contrário, o espírito da casa (domovoi) terminaria as sobras e lamberia as tigelas até ficarem limpas.

Sputnik Reprodução da pintura “Alimento de Moscou: Pães” (1924), de Iliá Machkov.
Sputnik

Em muitas regiões, acreditava-se que, se uma pessoa comia rápido, ela trabalhava também rápido e bem. Tanto é que esse era um teste para os trabalhadores antes de serem contratados. Mas os camponeses em si desaprovavam a gula: a ideia era que, se uma pessoa comesse demais, estaria comendo por dois – por si mesma e pelo diabo. O conselho sobre moderação se refletia em provérbios: “Não vá para a cama de barriga cheia – e você acordará saudável.”

Pão nosso de cada dia

Muitas superstições estavam associadas ao pão. Era proibido deixar cair pão no chão ou jogar as migalhas fora, para evitar a quebra da safra e a fome. No entanto, as migalhas podiam ser dadas aos pássaros.

Já mergulhar o pão no sal era considerado um mau presságio. Isso tinha uma explicação: o sal, caro na época, ficaria “contaminado” com as migalhas.

OpenAI
OpenAI

Muitos acreditavam que manter uma torrada de centeio no bolso protegia magicamente contra cãibras, enquanto um pão virado de cabeça para baixo no forno poderia ser um presságio de infortúnio ou até mesmo morte.

Ainda segundo os camponeses, olhar para uma pessoa através do buraco de um “kalatch" (pãozinho em forma de anel) poderia amaldiçoá-la ou identificar um feiticeiro.

A magia dos vegetais: repolho e ervilhas

Até o século 19, as batatas costumavam ser consideradas alimentos impuros nas comunidades camponesas, sendo apelidadas de “imundície” e “maçã do diabo”. Surgiram até lendas afirmando que plantas de batata cresciam nos túmulos de feiticeiros e bruxas. A base do cardápio da Quaresma, tanto em casas ricas quanto pobres, era o repolho.

Muitos sinais e rituais estavam associados a ele. “Kapustnitchki” (“Repolhinhos”) era, por exemplo, um apelido para crianças nascidas fora do casamento: dizia-se que elas eram “encontradas em plantações de repolho”. E se uma garota traísse o namorado, ele podia cortar todos os repolhos da horta dela.

Preparar repolho para o inverno era uma verdadeira festa. Produzia-se cerveja para esse dia, e um jantar especial era servido. As garotas se arrumavam e, à noite, os anfitriões e convidados organizavam bailes e festividades.

Galeria Tretiakov “O Almoço dos Trabalhadores Diários (fragmento)”, pintada em 1880 pelo artista russo Piotr Sukhodólski.
Galeria Tretiakov

Durante os dias de jejum da Quaresma, as ervilhas eram consumidas de diferentes formas. Acreditava-se que sereias, a Baba Iagá e outros espíritos malignos habitavam os campos de ervilhas. Além disso, elas eram usadas em rituais mágicos. Um deles era assim: na primavera, era preciso matar uma cobra, colocar três ervilhas dentro dela e depois enterrá-la no chão. Se uma flor nascesse, deveria ser colhida e selada em cera. Acreditava-se que a bola de cera com a flor ajudava a ler os pensamentos das pessoas quando colocada na boca.

Leia a versão completa deste artigo (em russo) no site Culture.ru

Siga-nos no Telegram para receber os nossos artigos e vídeos em tempo real!