O que o “beija-cruz” tem a ver com a vodca?
Na Rússia Antiga, do século 15 ao 18, existia uma categoria especial de funcionários eleitos – os ‘tselovalniki’ (‘beija-cruz’, em tradução livre; termo oriundo da palavra ‘tselovat’, ou ‘beijar’). Eles receberam esse nome devido à cerimônia de juramento: ao assumir o cargo, a pessoa fazia um juramento na cruz e a beijava como sinal de sinceridade. Na cultura da época, isso era considerado uma garantia máxima de honestidade: os ‘tselovalniki’ eram tratados com confiança, afinal, eles haviam feito uma promessa perante Deus.
Primeiras menções em leis e crônicas
As primeiras referências aos ‘tselovalniki’ são encontradas no ‘Sudebnik’ – o principal código de leis — de 1497. Nele, esses indivíduos são descritos como participantes de audiências judiciais conduzidas pelos governadores do príncipe. Uma crônica de 1508 relata que o grão-príncipe, desejando evitar injustiças, ordenou aos ‘tiuns’ (isto é, aos juízes) que ouvissem os casos juntamente com os ‘tselovalniki’ – quatro pessoas por mês. Assim, eles foram originalmente concebidos como representantes do povo, encarregados de garantir a integridade dos funcionários do príncipe.
Sergei Ivanov. "In the Prikaz Hut in the Tsardom of Moscow." 1907
Na primeira metade do século 15, as cidades e os distritos rurais receberam o direito de eleger os ‘tselovalniki’ para ajudar no combate ao banditismo. Após a reforma do governo local de 1555, suas responsabilidades se ampliaram significativamente. Em muitos lugares, eles até substituíram os governadores principescos e se tornaram autoridades locais de pleno direito. Por seus serviços, recebiam um pequeno estipêndio de seus eleitores.
O que exatamente faziam os ‘tselovalniki’?
Suas funções eram bem diversas: coletar impostos, taxas e outras receitas do Estado; participar de audiências judiciais e garantir a justiça das sentenças; e manter a ordem pública, incluindo a captura de ladrões e bandidos. Dependendo de sua área, assumiam diferentes funções. Os ‘tselovalniki’ de Lip ajudavam a combater o banditismo e eram selecionados entre os camponeses ricos capazes de assumir responsabilidades. Os ‘tselovalniki’ de Zemstvo trabalhavam ao lado dos anciãos do distrito (representantes do povo), supervisionando a administração geral e os tribunais locais. Os fiscais alfandegários (também ‘tselovalniki’) coletavam os impostos comerciais. Os fiscais de taverna (‘tselovalniki’) vendiam bebidas alcoólicas nas tavernas e fiscalizavam a venda de álcool; ao tomarem posse, juravam nunca diluir a vodca.
Alexey Maksimov, "In the Torture Chamber"
O período de serviço era geralmente de um ano e o trabalho podia ser árduo; era considerado um dever cívico e era mal remunerado ou não remunerado. Recusar o cargo era quase impossível – fazê-lo era considerado um crime contra o Estado. A responsabilidade era enorme: as autoridades exigiam que as quantias arrecadadas não fossem inferiores às do ano anterior – e, de preferência, superiores. Se um ‘tselovalnik’ não atingisse a meta exigida, a diferença era cobrada dele mesmo. Às vezes, batiam em suas pernas com varas até que ele “descobrisse” uma maneira de conseguir o dinheiro.
No entanto, os ‘tselovalnik’ também encontravam certas vantagens em sua posição. Para os camponeses, era uma maneira de se livrar de obrigações mais onerosas (como o serviço militar obrigatório). Para os comerciantes, era uma oportunidade de adular o tsar e obter uma carta régia que lhes concedesse privilégios comerciais (isenção de mais impostos). Eles corriam esse risco em busca de lucro futuro e proximidade com o poder.
Konstantin Trutovski. “Cobrança de dívidas na aldeia”. 1886
No século 15, a autonomia dos ‘tselovalnik’ foi gradualmente diminuindo. Nesse período, passaram a atuar sob a autoridade dos ‘voivodes’ (equivalentes a um prefeito ou governador), que eram nomeados pelo tsar.
As reformas de Pedro 1º, no início do século 18, deram o golpe final na profissão. Apenas os ‘tselovalnik’ das tavernas permaneceram, mas mesmo estes foram logo substituídos por pessoas contratadas pelos comerciantes. O nome, porém, seguiu o mesmo: na segunda metade do século 19 e início do século 20, os vendedores de vinho ainda eram chamados de ‘tselovalnik’ .
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