Quais idiomas eram falados na Rússia pré-revolucionária?
Se, no mundo atual, a decisão de aprender determinado idioma estrangeiro depende da área de atuação, da profissão, do lugar onde a pessoa vive e, às vezes, simplesmente de seus caprichos, na Rússia pré-revolucionária o conhecimento de línguas estrangeiras não era uma questão de escolha pessoal. Era um marcador claro que determinava o status social, a ocupação e até a visão de mundo de uma pessoa.
Nobres
Entre os nobres, o francês era praticamente uma segunda língua materna e, em alguns casos, chegava a ser a primeira língua. A partir de meados do século 18, o francês tornou-se a língua da cultura aristocrática, da etiqueta da corte, das cartas de amor e dos debates filosóficos. Os nobres falavam francês fluentemente, muitas vezes melhor do que russo. Basta lembrar de Tatiana Lárina, personagem do mais famoso romance em versos “Eugênio Onéguin”, de Aleksandr Púchkin, que “tinha dificuldade de se expressar em sua língua materna".
O francês era usado no dia a dia, sobretudo na capital e nas grandes cidades. Os nobres provincianos o dominavam pior e, por isso, eram alvo de zombaria.
O alemão também era muito difundido entre a nobreza, como língua da ciência e da vida militar, assim como, em menor medida, o inglês e o italiano. O latim e o grego às vezes faziam parte da educação doméstica, mas geralmente como matérias opcionais.
Sacerdotes
Entre os sacerdotes, predominavam duas línguas: o eslavônico eclesiástico, usado nos serviços religiosos e no ensino da leitura a partir do Saltério e do Livro das Horas, e o latim. Nos séculos 18 e 19, o latim se tornou a principal língua dos seminários e academias teológicas, era considerado a língua dos eruditos que distinguia o clero instruído do menos instruído. Durante muito tempo, quase todas as disciplinas nos seminários eram ensinadas em latim, e o aluno formado precisava não apenas ler, mas também escrever nessa língua morta.
Raznotchintsi
Entre esses dois mundos estavam os chamados raznotchintsi, ou seja, a camada social formada por pessoas de diferentes origens, como membros do clero, comerciantes, pequenos funcionários e outros grupos que não pertenciam à nobreza, mas ocupavam cargos intelectuais ou administrativos. Seu repertório linguístico era extremamente diversificado. Aqueles que recebiam uma educação universitária clássica dominavam o latim e o alemão, que continuavam sendo línguas da ciência e das ciências naturais. Entre os raznotchintsi, porém, havia muitos que vinham de famílias do clero e conheciam o eslavônico eclesiástico, ou que, por nascimento, pertenciam à nobreza empobrecida e haviam preservado o francês.
Camponeses
Os camponeses constituíam a maioria da população russa, e a maior parte deles era analfabeta. Mesmo no fim do século 19, o índice de alfabetização nas áreas rurais não ultrapassava os 20%. Os poucos aprendiam a ler e escrever por meio de livros em eslavônico eclesiástico usando um método de memorização mecânica das sílabas. Como resultado, havia camponêses que podiam ler textos religiosos, mas tinham dificuldades para compreender o russo literário.
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