Por que o escritor americano Theodore Dreiser viajou livremente pela URSS?

Kira Lissitskaia (Foto: Bettmann/Getty Images; Viktor Ruikovich/MAMM/MDF/russiainphoto.ru; Theodore Dreiser, H. Liveright, 1928)
Kira Lissitskaia (Foto: Bettmann/Getty Images; Viktor Ruikovich/MAMM/MDF/russiainphoto.ru; Theodore Dreiser, H. Liveright, 1928)
Poucos escritores estrangeiros tiveram acesso tão amplo ao cotidiano soviético quanto Theodore Dreiser, que desembarcou na URSS em 1927 com liberdade para circular pelo país, fazer perguntas sem restrições e até redefinir seu próprio roteiro de viagem. Em uma estadia de dois meses e meio, ele registrou em seus diários impressões de Moscou, Leningrado e regiões do interior, passando por alojamentos de operários superlotados e observando tensões que começavam a marcar a vida cultural.

Um dos principais nomes do naturalismo na literatura dos Estados Unidos, Theodore Dreiser ganhou popularidade com romances como “Irmã Carrie” e “Uma Tragédia Americana”, nos quais retratou com dureza as desigualdades sociais e o destino de indivíduos à margem do “sonho americano”. Sua atenção constante às contradições do capitalismo e à vida das classes trabalhadoras fez dele uma figura especialmente relevante para observar, de fora, a experiência soviética.

O jovem Estado soviético também precisava de um olhar externo, do reconhecimento por parte de figuras influentes do exterior e do direito de seguir seu próprio caminho. Dreiser, com sua origem proletária e uma obra literária que retratava as dificuldades e privações da vida de quem luta por um destino melhor, poderia se tornar o aliado ideal.

Rumo ao Oriente

Bettmann / Getty Images Theodore Dreiser fazendo anotações antes de partir para a Rússia
Bettmann / Getty Images

Em 1927, o escritor americano Theodore Dreiser recebeu um convite da organização soviética “Ajuda Operária Internacional” para visitar a URSS. Embora sonhasse em ir à Rússia desde o início dos anos 1900, ele aceitou o convite sob condições. Queria ver com os próprios olhos como vivia o cidadão comum no novo Estado, com quais dificuldades se deparavam operários e camponeses, como funcionavam as fábricas e como se desenvolviam as repúblicas nacionais.

Desde o início, deixou claro que pretendia permanecer na Rússia por um período longo, insistiu na liberdade de circulação e na possibilidade de escolher seu próprio itinerário, além do direito de fazer qualquer pergunta. Além disso, solicitou que lhe fosse designado um secretário-intérprete. Dreiser foi assegurado de que todas as condições seriam atendidas e que a URSS cobriria todos os gastos. “E se minha opinião for desfavorável?”, perguntou o americano. “Assumiremos o risco”, responderam os funcionários soviéticos.

Olympiya21/auction.ru Cartão postal soviético
Olympiya21/auction.ru

Em 19 de outubro de 1927, Dreiser partiu de Nova York rumo ao leste e, em 4 de novembro, chegou a Moscou. Ao todo, permaneceu na Rússia por 10 semanas. Viveu inicialmente na capital, depois seguiu para Leningrado (atual São Petersburgo) e, em seguida, viajou por todo o interior do país.

Desde os primeiros dias, passou a registrar diariamente suas impressões. Como resultado, o americano escreveu duas obras: “Diário Russo” e o livro “Dreiser olha para a Rússia”. Este último jamais foi publicado na íntegra na URSS. Mesmo durante a perestroika, em 1988, apenas alguns ensaios da coletânea vieram a público; mais tarde, capítulos restantes foram divulgados em diferentes revistas — o que não foi surpresa alguma.

Apesar do tom positivo sobre muitos aspectos da realidade soviética, Dreiser conseguiu perceber os sinais de um crepúsculo iminente: o esvaziamento do impulso criativo na arte, o triunfo da mediocridade e da burocracia, e o medo corrosivo que paralisava as forças criadoras. No final dos anos 1920, observações desse tipo, que praticamente apontavam para a escalada das repressões, eram impensáveis. No fim dos anos 1980, a percepção aguçada de um estrangeiro visitante parecia amarga demais.

Domínio público Da esquerda para a direita: o agrônomo Letien, Dra. Sofia Davidovskaia, Theodore Dreiser, Ruth Kennell e um guia local em Stalino (atual Donetsk), 1927
Domínio público

Arte, cotidiano e contrastes

Dreiser descreveu diversas vezes como as pessoas estavam dispostas a suportar as dificuldades do presente em nome de um futuro melhor, não necessariamente para si, mas para seus filhos. O americano ficou profundamente impressionado com um alojamento operário: “Em dois prédios vivem, talvez, umas 20 famílias. Cada uma ocupa um ou dois quartos, dependendo do tamanho da família. Nunca menos de três pessoas por quarto; na maioria das vezes, cinco ou mais. A situação é tão precária, tão pouco atraente e desorganizada, que não tenho palavras [...] Não há chuveiros. Existe apenas um, coletivo, no primeiro andar, para 12 famílias. A cozinha é compartilhada por seis famílias.”

©Theodore Dreiser, H. Liveright, 1928
©Theodore Dreiser, H. Liveright, 1928

Ele chegou a fazer uma visita guiada a essa cozinha. Queriam convencê-lo de que as mulheres soviéticas não sofriam com tal situação e até viam vantagens nisso, afinal, havia convivência, solidariedade e ajuda mútua. Explicavam que os russos tinham no sangue a inclinação para a vida comunitária, para o coletivismo. Mas não conseguiram convencê-lo.

Dreiser não conseguia aceitar a ideia de que aquele modo de vida pudesse ser a “encarnação da moradia comunista do futuro”. Para ele, a revolução deveria justamente abolir esse tipo de realidade em vez de preservá-la.

Domínio público Cozinha coletiva
Domínio público

Maior ainda foi sua surpresa ao perceber o quão generalizada era essa convivência coletiva na Rússia. Até diretores célebres como Vsévolod Meyerhold e Serguêi Eisenstein eram obrigados a dividir seus espaços com um grande número de pessoas.

Mais triste ainda, porém, era constatar que mestres consagrados da arte estavam limitados não apenas pelas paredes, mas também pela rígida ideologia. Segundo Dreiser, isso impedia que tanto Meyerhold quanto Konstantin Stanislávski se expressassem plenamente, porque estavam presos a tarefas de caráter propagandístico.

O. Preobrajenskaia/Sovkino, 1927 Pôster do filme “Mulheres de Riazan”, dirigido por O. Preobrajenskaia, 1927
O. Preobrajenskaia/Sovkino, 1927

Outra perda, em sua opinião, foi o desaparecimento da tradição literária na União Soviética. Para sua decepção, não encontrou escritores do mesmo nível dos grandes mestres do século 19.

“Comparados a Nikolai Gógol, Ivan Turguêniev, Fiódor Dostoiêvski, Lev Tolstói e Anton Tchékhov, ou seja, a toda a geração de grandes escritores russos do passado, os autores soviéticos contemporâneos parecem muito mais modestos”, escreveu o americano, com certo desgosto.

Esta reportagem é uma versão abreviada de um artigo originalmente publicado em russo na revista “Rússki Mir”.