Três ondas de exílio: como escritores russos deixaram o país e produziram suas obras longe da pátria

Kira Lissítskaia (Foto: Mary Evans Picture Library, ZUMAPRESS.com, Imagebroker.com/Global Look Press)
Kira Lissítskaia (Foto: Mary Evans Picture Library, ZUMAPRESS.com, Imagebroker.com/Global Look Press)
Ao longo do século 20, milhares de escritores russos foram forçados a deixar o país por causa de revoluções, guerras e repressões políticas. O exílio não foi apenas uma mudança geográfica, mas também um destino literário. O surgimento da “literatura russa no exterior” costuma ser dividido em três grandes ondas.

Os primeiros escritores russos foram exilados no século 16, durante o reinado de Ivan, o Terrível. A correspondência do primeiro tsar russo com o príncipe Andrei Kurbsky, que caiu em desgraça e fugiu do país, foi preservada e estudada pelos historiadores. Os dois maiores poetas russos, Aleksandr Púchkin e Mikhail Lêrmontov, também foram exilados.

No entanto, a emigração em massa ocorreu apenas no século 20 e esteve ligada ao curso dramático da história. Na maioria dos casos, a fuga ou o exílio eram definitivos, e os escritores não tinham esperança de retornar. Na chamada “literatura russa do exterior”, distinguem-se cronologicamente três ondas da emigração de escritores.

A primeira onda da emigração russa (1918–1940)

Após a Revolução de 1917 e durante a Guerra Civil, ocorreu a primeira grande fuga da elite intelectual russa. A maioria dos escritores, poetas, filósofos e pensadores fugiu do país por vontade própria, mas também teve quem foi expulso por não apoiar as ideias dos bolcheviques. O caráter massivo dessa onda entrou para a história sob o termo coletivo “Navios dos Filósofos”, uma operação do governo na qual intelectuais dissidentes foram expulsos do país em setembro e novembro de 1922. Lênin, o mandante da expulsão, descreveu a ação como um “expurgo de longo prazo da Rússia”.

Domínio público Navio "Oberbürgermeister Haken", um dos “Navios dos Filósofos”.
Domínio público

Dela fizeram parte os representantes mais talentosos do chamado “Século de Prata” da literatura russa. Entre eles, o futuro laureado com o Prêmio Nobel Ivan Búnin, Zinaida Gíppius e Dmitri Merejkóvski, Aleksêi Rémizov, Ivan Chmeliov, Vladislav Khodasiévitch, Marina Tsvetáieva e Vladímir Nabokov. Houve também quem se tornou famoso já no exterior: por exemplo, Gaito Gazdánov, que estreou em Paris com seu primeiro romance “Uma noite com Claire” (1929).

Mos.ru (CC BY 4.0) Ivan Búnin em Paris, 1928
Mos.ru (CC BY 4.0)

Os representantes da primeira onda são considerados verdadeiros continuadores das tradições da grande literatura russa e costumam ser contrapostos aos escritores que permaneceram na URSS e apoiaram os comunistas.

A segunda onda da emigração russa (1940–1950)

A segunda onda da fuga esteve ligada à Segunda Guerra Mundial. A emigração desse período foi significativamente menor em escala e deixou um rastro modesto na história da literatura. Ela é associada à fuga dos horrores da guerra e ao medo da ocupação nazista. Muitos acabaram se estabelecendo nos Estados Unidos.

Domínio público Mercado russo em Paris, 1930
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Entre os nomes mais notáveis da segunda onda estão Ivan Eláguin, Valentina Sinkévitch e Nikolai Narokov.

A terceira onda da emigração russa (1960–1980)

Em meados da década de 1960, começou a terceira onda. Alguns foram expulsos do país pelo governo, outros foram obrigados a partir por não terem possibilidade de publicar e garantir o próprio sustento. Houve também quem buscasse no exterior liberdade em relação à censura. Entre os autores mais destacados desse período estão Aleksandr Soljenítsin, Vassíli Aksiónov, Serguêi Dovlátov, Eduard Limonov, Sasha Sokolóv, Iúri Mamleev e Joseph Brodsky.

Robert R. McElroy / Getty Images Retrato do escritor e jornalista Serguêi Dovlátov, Nova Iorque, 1989
Robert R. McElroy / Getty Images

Se muitos emigrantes da primeira onda eram pessoas ricas, os representantes da terceira, na maioria das vezes, não tinham absolutamente nenhuma reserva financeira. Com frequência, acabavam no exterior em uma posição marginal, situação descrita por Eduard Limonov no romance “Sou eu, Édichka” (1976).

A maioria dos representantes desse período acabou se estabelecendo nos Estados Unidos, onde se formou uma comunidade de escritores russos no exílio.

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