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Por que o Império Russo declarou guerra ao chá nacional?

"A esposa do comerciante bebendo chá", 1923. Coleção do Museu de Arte do Estado de Níjny Nôvgorod
Fine Art Images/Heritage Images/Getty Images
Além de ser medicinal e crescer em qualquer lugar, era muito mais barato que o chá importado. Mas quem ousasse vender o tal ‘chá de Ivan’, também conhecido como ‘Ivan-tchai’, poderia acabar exilado na Sibéria.

O chá chegou à Rússia pela primeira vez no século 17, quando embaixadores chineses o ofereceram como presente ao tsar Miguel Fiódorovitch Romanov. Em 1679, os países assinaram um acordo de fornecimento da folha seca: em troca, a China recebia peles, tecidos, couro e outros produtos. Até 1862, o chá era transportado por via terrestre, passando pela Sibéria, o que tornava o produto já caro ainda mais dispendioso. Assim, apenas os mais ricos podiam consumi-lo.

Embalagem de chá em tijolo, final do século 19, Mongólia
Heritage Art/Heritage Images/Getty Images

Em 1821, o imperador russo Alexandre 1º autorizou a venda de chá em tavernas e restaurantes. Os russos adoraram a bebida chinesa e, em pouco tempo, as importações do produto cresceram para quase 6.000 toneladas — volume enorme para a época. Os preços, porém, continuavam altos.

“Taverna de Moscou”, de Boris Kustodiev, coleção da Galeria Tretiakov
Sverdlov / Sputnik

Foi então que empreendedores perceberam como faturar. A borra do chá usado era seca, limpa e reembalada para ser revendida. Em alguns casos, adicionavam até folhas verdadeiras para aumentar a autenticidade. O consumo desse “chá” reciclado podia representar risco à saúde, já que as folhas eram tratadas com diversos produtos químicos e corantes.

Chá de Kopórie

Havia, porém, uma alternativa legítima: secar e fermentar a planta chamada kiprei (epilobium, em latim), abundante na Rússia. Também conhecido como chá de Ivan, ou Ivan-tchai em português, essa planta despretensiosa era tradicionalmente usada por suas propriedades medicinais, como no tratamento de úlceras e dores de cabeça. Inicialmente, a planta era colhida e seca nos arredores da aldeia de Kopórie — daí o nome “chá de Kopórie”.

Planta kiprei (epilobium), também conhecida como chá de Ivan, Ivan-tchai ou chá de Kopórie
Wolfgang Kaehler/LightRocket/Getty Images

Pouco depois, a produção desse “chá russo” começou em muitas outras regiões do país, pois a planta podia crescer em qualquer lugar e sua coleta era simples. Apenas na região de São Petersburgo, eram produzidas dezenas de milhares de quilos de chá de Kopórie.

O produto era misturado ao chá chinês e vendido como se fosse original, mas a um preço bem menor. A quantidade de chá de Kopórie em circulação era tão grande que rivalizava com a do verdadeiro chá chinês.

Proibido por lei

Os comerciantes do chá chinês decidiram combater as falsificações. Eles apresentaram uma petição alegando que “sentem-se prejudicados no comércio pela venda, feita por varejistas, do chamado chá de Kopórie, que é comercializado como se fosse autêntico e a preços elevados”.

Departamento de pesagem de chá
Universal History Archive/Getty Images

Em 1816, a falsificação do chá chinês foi proibida; em 1833, o comércio das imitações entrou na mira. Infratores eram multados e tinham suas mercadorias confiscadas. Em caso de reincidência, podiam ser privados de todos os direitos civis e enviados para prisão.

“Cocheiro tomando chá”, de Boris Kustodiev, 1920
Aleksêi Sverdlov / Sputnik

Em um despacho do imperador Alexandre 1º, lê-se o seguinte: “Se algum comprador encontrar em lojas, feiras ou em outro local chá chinês misturado com chá de Kopórie ou chá de Ivan, e essa mistura for revelada e comprovada pelas autoridades competentes, o comerciante deverá, além das sanções legais, ser publicamente exposto nos jornais das duas capitais, como alguém que realiza seu comércio de forma fraudulenta e, portanto, indigno da confiança pública”. O Estatuto da Polícia Rural passou a proibir a colheita e o consumo do kiprei (epilobium) puro ou misturado com chá chinês.

Venda de chá no mercado rural de Níjni Nôvgorod, cerca de 1900
Photoinstitut Bonartes/Imagno/Getty Images

Em 1888, um julgamento de grande repercussão levou ao banco dos réus os irmãos Aleksandr e Ivan Popov, produtores de chá de Kopórie. Com o mesmo sobrenome dos renomados comerciantes de chá chinês, Konstantin e Semión Popov, eles vendiam folhas falsificadas em embalagens muito parecidas com as chinesas. Os consumidores sequer suspeitavam de que estavam pagando por uma mistura de chá de Ivan. Aleksandr Popov assumiu a culpa, foi destituído de todos os direitos civis e acabou sendo enviado para exílio perpétuo na província de Tomsk, na Sibéria.

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