É verdade que Stálin roubava bancos?
Na manhã de 13 de junho de 1907, em Tiflis (atual Tiblíssi), duas dezenas de bolcheviques atacaram a carruagem do Tesouro do Estado. Para travar a luta revolucionária, o futuro Partido Comunista em formação precisava de dinheiro.
Os agressores lançaram bombas contra a escolta que transportava o dinheiro e abriram fogo com pistolas, resultando na morte de vários cossacos e dezenas de transeuntes. Depois, conseguiram fugir com cerca de 350 mil rublos — um valor enorme para a época e que hoje seria equivalente a dezenas de milhões de dólares.
A chamada “Expropriação de Tiflis”, como os bolcheviques designaram a ação, acabou virando um dos assaltos mais comentados da história do Império Russo. Falava-se, inclusive, na participação de Ióssif Djugachvíli, que mais tarde ficaria conhecido mundialmente como Ióssif Stálin.
Segundo o historiador britânico Simon Sebag Montefiore, Djugachvíli foi organizador e participante ativo do roubo. Stálin teria sido o elo de ligação entre os grupos de combate no Cáucaso e o núcleo bolchevique, participando dos preparativos, da seleção de pessoas, da trama conspiratória e da posterior legalização do dinheiro. Montefiore escreve sobre isso em seu livro “Jovem Stálin”, cuja adaptação cinematográfica está prevista para 2026.
Entretanto, nem todos os historiadores concordam que Stálin participou diretamente do ataque.
“Stálin era o líder supremo da organização de combate. Ele próprio não participava diretamente das operações, mas nada acontecia sem a sua intervenção”, afirmou Tatiana Vulik, ex‑membro do Partido Bolchevique e emigrada.
Já o historiador Boris Nikolaevski considera que Stálin estava ciente das atividades terroristas do grupo de Tiflis e “o protegia perante a organização partidária local”, mas que “não era de maneira alguma o seu líder”.
O principal especialista russo em Stálin, que trabalhou com arquivos, Oleg Khlevniuk, afirma que não existem provas diretas de que Stálin tenha lançado bombas, porém, há evidências consistentes de que ele sabia dos preparativos, ajudou na organização e mantinha comunicação com estruturas partidárias.
No período soviético, a “Expropriação de Tiflis” praticamente desapareceu da história oficial. Nos livros escolares e materiais didáticos, o episódio não era sequer mencionado, ou era reduzido a formulações vagas como “medidas para obtenção de fundos para o partido”. Detalhes como bombas, dezenas de vítimas e o papel de Stálin eram totalmente omitidos para preservar a imagem dos bolcheviques como uma “força legítima e moralmente pura”.
Em raros casos, o evento era chamado de “expropriação revolucionária” ou “retirada de fundos”, sem avaliações ou consequências. A política memorial era clara: apagar um episódio contraditório para não destruir o mito do início heroico do poder soviético.
Após a morte de Stálin, o ataque à carruagem do Tesouro chegou a ser apresentado ao público como um ato heroico. Foi assim retratado no filme de 1957 “Conhecido pessoalmente”, no qual o principal papel no assalto foi atribuído ao amigo e companheiro de Stálin, Simon “Kamo” Ter‑Petrosian. O nome do líder soviético, porém, não foi associado a esse evento.
Hoje em dia, já existe um consenso em círculos históricos de que Stálin não atuou como simples combatente nem comandou sozinho esses assaltos e operações, mas teve, sim, um papel-chave nos acontecimentos. Ele atuou como coordenador e mediador, assegurando a ligação entre os grupos clandestinos e a liderança partidária, e dirigia uma rede organizacional que permitia que os roubos fossem realizados com sucesso.
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