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Por que os filhos de Ivan, o Terrível, se tornaram santos?

"Saint Theodore Stratelates," "Saint John Climacus," "Saint Demetrius of Thessaloniki"
Janela para a Rússia (Foto: Domínio público)
O tsar teve oito filhos — cinco homens e três mulheres. No entanto, a maioria deles morreu na infância.

Três dos filhos do tsar — ​​Ivan, Teodoro e Demétrio — chegaram à idade adulta. Os dois últimos foram canonizados, ainda que por razões e em épocas diferentes.

Tsar Teodoro Ivanovitch (1557–1598)

Teodoro nasceu da primeira e amada esposa de Ivan, o Terrível, Anastassia Romanovna. Após a morte de seu pai, em 1584, ele herdou o trono e tornou-se o último tsar da dinastia Rurik. Teodoro ficou conhecido na história como “o Bem-Aventurado”. Seus contemporâneos o descreviam como um homem manso e profundamente religioso, com pouco interesse nos assuntos de Estado. Seu pai lhe deu o apelido de “Tocador de Sinos” devido à sua paixão por tal prática; ele costumava subir à torre do campanário para tocar os sinos pessoalmente.

Segundo alguns relatos, Teodoro também herdou a paixão do pai por competições brutais — como lutas a punho e combates entre homens e ursos.

Durante seu reinado, o poder ficou nas mãos do boiardo Boris Godunov, seu cunhado. Mas isso não significava que Teodoro fosse incapaz de governar. Ele se envolveu, por exemplo, na criação do Patriarcado em 1589 e na guerra contra a Suécia.

Retrato de Fiódor Ivanovitch (feito na década de 1630) da lápide na Catedral do Arcanjo, no Kremlin de Moscou
Domínio público

Ainda assim, os seus contemporâneos não o viam tanto como um político, mas como um homem justo. A sua vida era vista como um modelo de humildade cristã, oração ascética e devoção ao dever.

Reza a lenda que, antes de morrer, o tsar conversou com uma figura invisível para os outros, dirigindo-se a ele como um grande hierarca e, no momento da sua morte, uma doce fragrância preencheu os aposentos do Kremlin de Moscou.

O movimento de venerá-lo como um santo começou logo após sua partida em 1598. No início do século 17, começaram a aparecer ícones representando Teodoro com uma auréola, e o Patriarca Jó compôs sua hagiografia. Em 1982, a Igreja Ortodoxa Russa canonizou oficialmente o tsar Teodoro Ivanovitch como parte da Sinaxe dos Santos de Vladimir. Teodoro foi glorificado como um “tsar ortodoxo fiel à palavra” – isto é, um governante cuja santidade se manifestou não por meio do martírio, mas por uma vida piedosa e de serviço humilde a Deus e ao seu povo.

Tsarévitch Demétrio de Uglitch (1582–1591)

Demétrio era o filho mais novo de Ivan, o Terrível, e de Maria Nagaia, sua última esposa. Após a morte do pai, ele e sua mãe foram enviados para a cidade de Uglitch.

Algumas fontes – sobretudo estrangeiras – atestam as tendências cruéis de Demétrio. Em seus escritos sobre a Rússia, o enviado inglês Giles Fletcher afirma que o tsarévitch estava “começando a mostrar todas as qualidades do pai”, observando que gostava de ver o gado sendo abatido e batia pessoalmente em galinhas e gansos até a morte com um pedaço de pau.

O mercenário alemão Conrad Bussow relatou um episódio envolvendo “boiardos da neve”, no qual Demétrio ordenou que seus companheiros criassem figuras de neve representando príncipes e nobres. Ele atribuiu o nome de um boiardo específico a cada figura e então usou um sabre ou porrete para cortar e arrancar suas cabeças, braços e pernas, declarando que era assim que lidaria com seus inimigos quando se tornasse tsar. Na ocasião, ele teria definido a figura de Boris Godunov primeiro e então cortado sua cabeça.

Demétrio morreu em 1591 em circunstâncias misteriosas: enquanto participava de um jogo envolvendo facas, sofreu um ataque epiléptico e infligiu um ferimento fatal a si mesmo.

“Ícone de Medida do Tsarévitch Demétrio”, representando São Demétrio de Tessalônica
Domínio público

Uma investigação oficial liderada pelo boiardo Vassíli Chuiski concluiu que a morte havia sido acidental. No entanto, um boato popular acusava Boris Godunov de assassinato, alegando que ele estava abrindo caminho para o trono. Essa teoria ganhou ainda mais força após o surgimento de impostores que afirmavam ser o “tsarévitch milagrosamente salvo”.

A canonização de Demétrio, em 1606, foi iniciada por Chuiski, agora novo tsar. A motivação não era apenas religiosa, mas também política: era preciso dissipar os rumores de que o tsarévitch ainda estava vivo e desacreditar os impostores.

Demétrio era venerado como um inocente “Portador da Paixão”, que havia perecido pelas mãos de assassinos. Suas relíquias foram solenemente transferidas de Uglitch para a Catedral do Arcanjo, no Kremlin de Moscou, e ele foi formalmente canonizado.

No século 17, tornou-se um dos santos mais adorados da Rússia. Ícones com sua imagem foram distribuídos por todo o país, e ele passou a ser considerado um patrono celestial dos príncipes russos e um protetor do Estado.

Por que Ivan Ivanovitch (1554–1581) não foi canonizado?

Ivan, o Terrível, teve um filho mais velho com Anastassia Romanovna: o tsarévitch Ivan Ivanovitch. Ele morreu aos 27 anos, após ser atingido pelo cajado de seu pai durante um acesso de raiva.

Ivan Ivanovitch não foi canonizado porque sua morte, embora trágica, não preenchia os critérios para a santidade ortodoxa. Ele não morreu como mártir ou “Portador da Paixão”, mas sim como resultado de uma disputa familiar.

“Ivan, o Terrível e seu filho Ivan em 16 de novembro de 1581”, de Iliá Repin
Galeria Tretiakov, Moscou

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