Quais idiomas eram falados na Rússia pré-revolucionária?

Kira Lissítskaia Foto: Mikhail Krukovski/Kunstkamera, V. Fedorov, Afanássi Tchernov/MAMM/MDF/russiainphoto.ru)
Kira Lissítskaia Foto: Mikhail Krukovski/Kunstkamera, V. Fedorov, Afanássi Tchernov/MAMM/MDF/russiainphoto.ru)
Entre os nobres, falava-se francês; entre os raznothinets, alemão; os camponeses aprendiam a ler e escrever em eslavônico eclesiástico — e esses mundos quase não se cruzavam. Cada camada da sociedade dominava seu próprio conjunto de idiomas, que permitia identificar a origem social de uma pessoa.

Se, no mundo atual, a decisão de aprender determinado idioma estrangeiro depende da área de atuação, da profissão, do lugar onde a pessoa vive e, às vezes, simplesmente de seus caprichos, na Rússia pré-revolucionária o conhecimento de línguas estrangeiras não era uma questão de escolha pessoal. Era um marcador claro que determinava o status social, a ocupação e até a visão de mundo de uma pessoa.

Nobres

Entre os nobres, o francês era praticamente uma segunda língua materna e, em alguns casos, chegava a ser a primeira língua. A partir de meados do século 18, o francês tornou-se a língua da cultura aristocrática, da etiqueta da corte, das cartas de amor e dos debates filosóficos. Os nobres falavam francês fluentemente, muitas vezes melhor do que russo. Basta lembrar de Tatiana Lárina, personagem do mais famoso romance em versos “Eugênio Onéguin”, de Aleksandr Púchkin, que “tinha dificuldade de se expressar em sua língua materna".

O francês era usado no dia a dia, sobretudo na capital e nas grandes cidades. Os nobres provincianos o dominavam pior e, por isso, eram alvo de zombaria.

Museu Estatal Lev Tolstói/russiainphoto.ru Lev Tolstói com sua família e Mikhail Stakhovitch
Museu Estatal Lev Tolstói/russiainphoto.ru

O alemão também era muito difundido entre a nobreza, como língua da ciência e da vida militar, assim como, em menor medida, o inglês e o italiano. O latim e o grego às vezes faziam parte da educação doméstica, mas geralmente como matérias opcionais.

Sacerdotes

Museu Estatal Histórico dos Urais do Sul A família de um clérigo
Museu Estatal Histórico dos Urais do Sul

Entre os sacerdotes, predominavam duas línguas: o eslavônico eclesiástico, usado nos serviços religiosos e no ensino da leitura a partir do Saltério e do Livro das Horas, e o latim. Nos séculos 18 e 19, o latim se tornou a principal língua dos seminários e academias teológicas, era considerado a língua dos eruditos que distinguia o clero instruído do menos instruído. Durante muito tempo, quase todas as disciplinas nos seminários eram ensinadas em latim, e o aluno formado precisava não apenas ler, mas também escrever nessa língua morta.

Raznotchintsi

Entre esses dois mundos estavam os chamados raznotchintsi, ou seja, a camada social formada por pessoas de diferentes origens, como membros do clero, comerciantes, pequenos funcionários e outros grupos que não pertenciam à nobreza, mas ocupavam cargos intelectuais ou administrativos. Seu repertório linguístico era extremamente diversificado. Aqueles que recebiam uma educação universitária clássica dominavam o latim e o alemão, que continuavam sendo línguas da ciência e das ciências naturais. Entre os raznotchintsi, porém, havia muitos que vinham de famílias do clero e conheciam o eslavônico eclesiástico, ou que, por nascimento, pertenciam à nobreza empobrecida e haviam preservado o francês.

Camponeses

William Carrick/russiainphoto.ru Chá da tarde
William Carrick/russiainphoto.ru

Os camponeses constituíam a maioria da população russa, e a maior parte deles era analfabeta. Mesmo no fim do século 19, o índice de alfabetização nas áreas rurais não ultrapassava os 20%. Os poucos aprendiam a ler e escrever por meio de livros em eslavônico eclesiástico usando um método de memorização mecânica das sílabas. Como resultado, havia camponêses que podiam ler textos religiosos, mas tinham dificuldades para compreender o russo literário.

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