Quem é o alter ego de Tolstói em ‘Guerra e Paz’?

Kira Lissítskaia (Foto: Fine Art Images/Heritage Images, Keith Hamshere/Getty Images)
Kira Lissítskaia (Foto: Fine Art Images/Heritage Images, Keith Hamshere/Getty Images)
Na verdade, existem dois deles no romance.

Muito antes de se casar e de lançar “Guerra e Paz”, Tolstói registrou em seus diários algumas reflexões curiosas e intrigantes sobre homens bem-apessoados lá em 1851. Este tema se tornou um dos mais importantes: o que significa ser um “verdadeiro” aristocrata – elegante, moderno e irretocável?

Esse anseio por um ideal inatingível também está presente em sua prosa inicial. Em seu livro ‘Juventude’, Tolstói explica especificamente o que é um homem “comme il faut” (do francês, “como deve ser”). Listando as características de um verdadeiro dândi, o escritor cita a pronúncia francesa impecável, unhas compridas bem aparadas e a habilidade de se curvar e dançar graciosamente. Entre essas características, ele acrescenta ainda “descaso e displicência intencionais”.

Fine Art Images/Heritage Images / Getty Images Retrato de Tolstói. Do Acervo do Museu Estatal Lev Tolstói, Moscou
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Tolstói admite que se esforçava ao máximo para alcançar uma aparência imaculada, mas nunca entendeu como seus amigos conseguiam disfarçar tais esforços. Para eles, tudo parecia acontecer naturalmente. O próprio Tolstói, apesar de toda a sua pompa aristocrática, sentia-se constrangido em sociedade, sofria com a aparência pouco atraente e se comportava de maneira desajeitada. Ele transferiu esse conflito interno – entre “como me vejo” e “como quero ser” – para as páginas de seu clássico “Guerra e Paz”.

Legion Media Henry Fonda (Pierre Bezúkhov), Mel Ferrer (Príncipe Andrei Bolkónski) em cena de “Guerra de Paz” (1956)
Legion Media

Segundo o historiador literário Andrei Zorin, a rivalidade entre Pierre Bezúkhov e Andrei Bolkónski por Natasha Rostova é, na verdade, uma disputa entre “dois Tolstóis”: o real e o ideal. Pierre é o homem que o escritor via e considerava a si mesmo: desajeitado, introspectivo, propenso a erros e à reflexão. Já o príncipe Andrei representa o ideal inatingível ao qual Tolstói aspirou sem sucesso durante toda a sua vida. Nessa batalha, pressupõe-se que o verdadeiro Tolstói venceu: na versão final do romance, o príncipe Andrei tem um fim trágico, abrindo caminho para Pierre.

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