Quem são os “Robin Hoods” na literatura russa?
Na literatura romântica, o “bandido nobre” é um herói positivo, e não um vilão. Frequentemente de origem nobre, ele é levado por uma injustiça social ou pessoal flagrante a agir fora da lei, tornando-se, assim, um fora da lei em nome da restauração da justiça violada. Ao mesmo tempo, ele segue um código de honra interno: não rouba os pobres e protege os fracos, conquistando a simpatia do leitor, uma vez que seus crimes representam um desafio a uma sociedade injusta, e não uma manifestação de ganância ou crueldade. Esse arquétipo também encontrou seu lugar na literatura russa.
Vladímir Dubróvski (da obra “Dubróvski”, de Aleksandr Púchkin)
Vladímir Dubróvski é o protagonista do romance inacabado ‘Dubróvski’, de Aleksandr Púchkin, e o exemplo por excelência do “bandido nobre” na literatura russa. Um jovem nobre e oficial russo, no início do século 19, retorna da capital para casa e descobre que um vizinho rico e influente, chamado Troiekurov, apossou-se de suas terras ancestrais, arruinou sua família e levou seu pai a uma morte prematura. Depois de perder tudo, Vladímir se torna líder de um grupo de camponeses fora da lei, porém, tem como alvo somente os ricos e os injustos. Para permanecer perto de Masha, filha de Troiekurov, Vladímir se infiltra secretamente na casa de seu inimigo disfarçado de preceptor francês, sob o nome de Deforge, e acaba se apaixonando por ela. Quando Masha é forçada a se casar, contra a sua vontade, com o idoso príncipe Vereiski, Dubróvski tenta resgatá-la, mas chega tarde demais. Por amor a Masha, Vladímir abandona sua busca por vingança contra Troiekurov, dissolve seu bando e desaparece.
Emelian Pugatchov (Aleksandr Púchkin, ‘A Filha do Capitão’)
Além de ser uma figura histórica real — líder de uma revolta camponesa no século 19 —, Pugatchov é também um personagem na prosa de Púchkin. O autor não o retrata somente como um rebelde brutal, mas como um homem complexo e contraditório. Embora ele possa ser aterrorizante em seus atos de retaliação e na guerra, Pugatchov também é capaz de magnanimidade e recorda-se de gestos de bondade. Um exemplo disso é o fato de ele poupar a vida de Piotr Griniov em retribuição a um velho casaco de pele de lebre que Griniov lhe dera outrora. Púchkin não o idealiza, nem o apresenta como um vilão unidimensional. Pugatchov é sábio, irônico e possui um certo encanto popular; no entanto, é também uma figura trágica, plenamente consciente de que o caminho que escolheu está fadado ao fracasso.
Kudeyar (Nikolai Nekrássov, ‘Quem Vive Feliz na Rússia?’)
No poema de Nekrássov, Kudeyar é um lendário chefe de bando que, na velhice, arrepende-se de suas atrocidades passadas e vira monge para expiar seus graves pecados. Seguindo o conselho de um ancião, Kudeyar recebe uma tarefa inusitada como penitência: deve passar vários anos golpeando o tronco de um carvalho imenso com uma faca. Contudo, os seus pecados só são verdadeiramente absolvidos quando ele mata Pan Glukhovski — um proprietário de terras cruel que se vangloriava de atormentar, torturar e enforcar os próprios servos. Nesse exato momento, a árvore cai miraculosamente por conta própria, simbolizando “o perdão vindo do alto”.
Capitão Kopeikin (Nikolai Gógol, ‘Almas Mortas’)
Capitão Kopeikin é o personagem de uma historia embutida no capítulo 10 de ‘Almas Mortas’, de Gógol. Trata-se de um oficial e veterano da Guerra de 1812 que voltou para casa com sequelas físicas — após perder um braço e uma perna. Sem recursos ou qualquer apoio, ele viaja a São Petersburgo para solicitar ao Estado a assistência financeira a que tem direito; porém, os funcionários limitam-se a prometer que “analisarão o caso” e o dispensam de mãos vazias. Levado ao desespero pela indiferença das autoridades, Kopeikin, reza a lenda, torna-se o líder de um bando de foras da lei nas florestas da região de Riazan. Ele tem como alvo apenas propriedades do Estado, deixando intactos os bens particulares.
Nomakh (Serguêi Iessênin, ‘A Terra dos Canalhas’)
Nomakh é o líder de um bando rebelde nos Urais em 1919 — uma figura na qual é fácil reconhecer o anarquista histórico Nestor Makhno. Depois de participar da revolução, ele se vê desiludido com o novo regime. Por isso, retira-se para as florestas para travar uma luta contra o sistema e, mais tarde, conduz um ataque a um trem que transportava “ouro”. Ele é um rebelde anárquico e trágico, que valoriza a liberdade acima da riqueza e não tem interesse em ganhos pessoais.
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