O que os clássicos russos pensavam sobre a “datcha”?

Kira Lissítskaia (Foto: VvoeVale, iridi, Jerry Cooke/Getty Images; Sputnik)
Kira Lissítskaia (Foto: VvoeVale, iridi, Jerry Cooke/Getty Images; Sputnik)
Como aproveitar o tempo na casa de campo, em meio à natureza, sem se arrepender – segundo os diários e cartas de famosos escritores russos.

Os russos devem o surgimento das datchas a Pedro, o Grande, que concedeu terrenos nos arredores de São Petersburgo a seus cortesãos e confidentes para a construção de propriedades rurais. Desse modo, ele resolveu dois problemas: mantinha os seus “por perto”, e a área ao redor da nova capital acabaria sendo ativamente desenvolvida. Daí surgiu a palavra “да́ча/datcha”, derivada do verbo “дарить/darit” (“dar”, em português).

No final do século 19, a datcha passou a ser o nome dado a qualquer residência rural – particular ou alugada. Surgiu também a tradição de deixar a cidade durante o verão para escapar do barulho e da poeira. “No verão, a maioria dos moscovitas se refugiava nas datchas, que eram abundantes nos subúrbios de Moscou. Lá, vivia-se em harmonia com a natureza. Aqueles que permaneciam em Moscou eram considerados mártires”, escreveu o pintor Konstantin Korôvin em suas memórias.

Jerry Cooke / Getty Images
Jerry Cooke / Getty Images

Boris Pasternak, autor de ‘Doutor Jivago’, preferia a vida no campo: “Detesto o verão na cidade… A solidão se apresenta da mesma forma que a solidão da loucura ou os tormentos do inferno. Poeira, areia, calor abafado.”

O desejo de fugir da cidade no calor era tamanho que Fiódor Dostoiévski começava a planejar suas férias de verão já no inverno. “E como a questão de uma casa de veraneio é tão importante para nós, nós, por conselho dos Vladislavlev, confiamos a eles o aluguel de uma casa de campo em Stara Russa. Os Vladislavlev elogiam a localização, a água, o preço acessível e o conforto. É verdade que o lugar fica perto de um lago e é um pouco úmido – isso é sabido –, mas o que se pode fazer? As águas são boas para a escrófula [tuberculose extrapulmonar] e serão benéficas para Liuba.”

Galeria Tretiakov
Galeria Tretiakov

Ivan Búnin também apreciava bastante a sua permanência na datcha: “A casa de campo onde estou passando o verão novamente tem um século e meio. E é sempre um prazer lembrar e sentir sua idade (…) Ainda é de manhã, uma brisa leve sopra ocasionalmente pela sala – todas as janelas estão abertas. Pela janela à minha esquerda, um sol alegre e brilhante incide obliquamente no parapeito, revelando a densa vegetação do jardim, que brilha ao sol com sua incontável folhagem, escondendo sombras e uma frescura ainda presente em suas profundezas, ora calma, ora tranquila, ora ondulante, e então me alcançando com um sussurro sedoso, ainda de verão…”

Legion Media
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Anton Tchékhov adorava a vida no campo: “Minha mente está repleta de pensamentos sobre o verão e a datcha. Deitar no feno e pescar uma perca me satisfaz de forma muito mais tangível do que críticas e uma plateia entusiasmada”, confessou ao dramaturgo Ivan Leontiev. Seu plano ideal para férias fora da cidade era o seguinte: “Nem arar nem semear, mas simplesmente viver para o próprio prazer, viver apenas para respirar o ar puro…”

Sputnik
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Mas tudo mudou quando Tchékhov adquiriu uma propriedade em Melikhovo, nos arredores de Moscou: o jardineiro que havia dentro dele de repente despertou. Embora admitisse que “não sei nada sobre agricultura, exceto que a terra é preta – nada mais”, Tchékhov chegou a plantar cerejeiras, macieiras e inúmeras lilases.

Com o mesmo entusiasmo, ele fez o paisagismo dos jardins de sua casa em Ialta, cuidando pessoalmente do jardim, incluindo as roseiras. “Mandei plantar todas as árvores aqui e, claro, elas são preciosas para mim. Mas isso não é o importante. Afinal, antes de eu vir para cá, havia um terreno baldio e ravinas absurdas, tudo coberto de pedras e cardos.  Agora, eu vim e transformei esse deserto em um lugar cultivado e bonito. Quem sabe, daqui a 300 ou 400 anos, toda a terra se transformará num jardim florido. E a vida será então incrivelmente fácil e confortável!”

Spivak / Global Look Press
Spivak / Global Look Press

Muitos escritores escolheram Gátchina, nos entornos de São Petersburgo, como lar. Aleksander Kúprin confessou certa vez: “Consegui criar para mim a ilusão completa da aldeia que amo, o único lugar que traz a paz de espírito tão desesperadamente necessária para a nossa espécie”. Lá, ele tinha um jardim e um galinheiro, que eram o seu xodó.

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